Palavras que Nunca Darei a Ela

setembro 10, 2007 at 2:38 pm 20 comentários

caderno O hiato vago entre um gole de vinho tinto e um trago no cigarro-mato eleva a minha lucidez. Leva toda a minha compostura pra longe. As cinzas do baseado caem sobre a folha do caderno, onde eu escrevi uma carta pra ela. Versos bobos, prosa branda e confissões picantes. Página branca virgem, estuprada pelas minhas letras ágeis e certeiras, escrevendo rimas soltas em cada traço órfão de um sentimento casto. Na melhor das hipóteses, seriam letras imaculadas.

Pego a garrafa e encho novamente a taça. Devolvo ao ventre cristalino do copo, o néctar de Baco. E o vinho jamais será uva novamente. Logo eu, solto no mundo, hippie da vida singela, andarilho de corações alheios. Não! Eu não posso me deixar levar pelos olhos castanhos dela. Já provei de todas as cores, mas essa não pode me entorpecer. E o pecador jamais será inocente novamente. Castanha do Pará, pra sanar a larica. Bagulho. Último suspiro-trago no fim da ponta. Orgulho. Último suspiro no fim das contas, onde trago ela no peito e na mente.

Eu sei que já é tarde, mas eu acabei de acordar. Daqui posso ver a chuva beijando o vidro da janela. Gotas lânguidas que escorrem a minha saudade fútil. A porra do vinho acabou e eu só tenho uma garrafa de água mineral sem gás quente, pra me embebedar. Tudo que me leva pra longe de onde ela está. Coloquei o som alto, com a música do The Cure que ela odeia. Uma que cantei no carro, antes de lhe dizer adeus.

Ainda estou segurando o caderno, onde rabisquei algumas de minhas emoções. Uma gota do vinho caiu em cima de um verso que fiz com sentimento “amor”. Está um pouco borrado, mas ainda daria pra ela enxergar meu rabisco-poema. Guardo cada verso com carinho, para que fique gravado em meu peito. Mas, cada linha vai permanecer ilesa, indecifrável. Pois esta é minha carta de despedida, uma folha com palavras que nunca darei a ela. E jamais vou dar. Culpa do hiato vago entre um gole de vinho tinto e um trago no cigarro-mato que elevou toda a minha lucidez. Levou a minha compostura pra longe.

Entry filed under: Ácidos.

Sem Glicose na Despensa Poesia Cretina, Feita de Café Aguado e Leite Desnatado

20 Comentários Add your own

  • 1. cabrita  |  setembro 10, 2007 às 2:56 pm

    sou careta

    vou chamar o Lagedo, péra aí….

    Responder
  • 2. Erika  |  setembro 10, 2007 às 11:26 pm

    beija o vinho… engole o poema… degusta o hiato.

    beijos

    Responder
  • 3. Aline Virgílio  |  setembro 11, 2007 às 11:32 am

    Ahhhhh. Eu como vc dizia as palavras. Não sei se porque é um impulso, mas acho quer não se deve esperar!
    Essa mulher ainda vai te matar!!!
    Rsrsrsrs

    Responder
  • 4. Flávia  |  setembro 11, 2007 às 6:56 pm

    Esse post lembrou-me todas as cartas de amor que escrevi e que nunca mandei… ainda guardo alguns dos rabiscos; de outros, faço questão de não ter nem a lembrança…

    Adorei suas letras, na melhor das hipóteses, imaculadas.

    Beijos, moço

    Responder
  • 5. Christiani Rodrigues  |  setembro 11, 2007 às 7:03 pm

    Mas que malvado!!!

    Responder
  • 6. alexandre  |  setembro 11, 2007 às 7:35 pm

    As cartas são apenas acessórios, as letras ferramentas!

    Responder
  • 7. Alê Namastê  |  setembro 11, 2007 às 9:49 pm

    Eu vivo rabiscando…Vício!

    Responder
  • 8. iulo  |  setembro 12, 2007 às 2:00 am

    the cure + vinho é pedir para a vontade de pular pela janela chegar mais cedo!

    Responder
  • 9. babisoler  |  setembro 12, 2007 às 2:40 pm

    Esses escritos não enviados são os que realmente vem do fundo da alma.
    Beijo e boa semana

    Responder
  • 10. lunna  |  setembro 12, 2007 às 3:11 pm

    “Uma gota do vinho caiu em cima de um verso que fiz com sentimento “amor”.”

    Sua magia me causa um sorriso e um arrepio corre solto pela pele.
    E tudo vive em suspenso no depois.
    Beijos meus a você.

    Responder
  • 11. fcassab  |  setembro 12, 2007 às 9:38 pm

    Como vc conseguiu mudar links pra Mais Acidez com Poesia?
    Me conta

    Responder
  • 12. luana  |  setembro 12, 2007 às 11:33 pm

    aiai
    esses textos me deixam tãooo pensativa.. vinho é sempre uma boa companhia (sei lá como escreve, sempre troco..) e eu escutando snow patrol., não ajuda nada! enfim.. viva!

    ps: feriado eh otimo mesmo..vc se esbanjaa ateh não qrer mais e tenta se recuperar quando der.. 🙂

    Responder
  • 13. lunna  |  setembro 14, 2007 às 1:49 am

    Oi moço, ainda estou esperando seu texto para o Coletanea Artesanal. Vai ou não me presentear com a sua participação?
    Beijos meus e uma gota de vinho para seu sentir.

    Responder
  • 14. rafael fermano  |  setembro 14, 2007 às 11:26 pm

    Prefiro um bom malte escocês para lubrificar a mente, todavia, belo lamento!

    Abraços

    Responder
  • 15. Diana  |  setembro 15, 2007 às 5:40 pm

    Olá. Acabei de me deliciar com seu ácido poético. Parabéns, rapaz! Simplesmente fascinante.

    Responder
  • 16. B.  |  setembro 16, 2007 às 5:38 am

    Lindo. Mundano e lindo.
    Daria muita coisa por um gole desse vinho e um suspiro-trago desses.

    Beijo meu.

    Responder
  • 17. milah  |  setembro 16, 2007 às 3:57 pm

    quantas e quantas vezes a gente escreve e não manda..
    tu podia mudar dessa vez né?

    Responder
  • 18. João Paulo  |  setembro 16, 2007 às 11:41 pm

    Ler vc é a mesma coisa que viajar no mundo dos mais famosos escritores, sem falar apermissividade que seu texto nos conduz… é muito bom um espaço como esse para elevarmos o ego… a leitura é fascinante.

    Parabéns!

    Responder
  • 19. Fernanda Passos  |  setembro 17, 2007 às 4:28 am

    Li o teu texto na coletânea artesanal e fiquei deliciada. Decidi vir te conhecer. Fiquei extasiada. Esse teu texto/hiato criou um istmo entre meu caminho e tua casa. Voltarei sempre. Vc é muito bom.
    Abraços.

    Responder
  • 20. Ana M.  |  setembro 21, 2007 às 11:50 am

    “trago ela no peito”; adorei o duplo sentido.

    Responder

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O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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