Archive for setembro, 2007

Impermeabilização de Um Comodismo Banal

Impermeabilização de Um Comodismo Banal Ele sabia que precisava dizer algo, só não sabia o quê. Arriscou um bocejar sorrateiro e suspirou com um ar de quem vive exilado na rotina. Cansado do cômodo amarelado, acomodado e meio puto com aquela infiltração no teto, pisou cuidadosamente no azulejo turquesa entre o prato com resto de pizza portuguesa e uma taça com resto de vinho chileno. Ainda olhou para o rosto dela antes de coçar os olhos retirando a remela. Havia baba seca na fronha do travesseiro.

– Olha só o sol que está lá fora
– … fecha a cortina…
– Anda, levanta! Vamos dar uma volta…
– Cala a boca e volta pra cama. Vamos dormir até tarde
– Mas já são 10h, pára com essa preguiça.
– Xiiii! Cala a boca!
– Cala a boca?
– Me deixa dormir.
– Te deixo pra sempre
– Vá, mas eu fico com o lençol.

E com o pouco carinho e a sensação repugnante de não receber sequer um ‘bom dia’, fechou a cortina e foi fumar um cigarro só e sozinho na solidão do banheiro. Abandonado. Por entre o reflexo do espelho e a fumaça cinza daquele início de dia ranzinza. Olhou sua imagem e jogou um pouco d’água no rosto e no cabelo. Coçou a barba fecunda e deixou a raiva escoar pelo ralo, com o escarro de nicotina e pasta de dente. Tudo por culpa daquele comodismo banal. E a resposta para se permitir ser tratado como lixo, isso ele não sabia perguntar. O sexo até que é bom, agradável. Isso ele sabia responder. Mas o carinho, o amor e o companheirismo estavam atrás da cortina, longe daquele lençol. Sol. Precisava de um pouco mais de brilho e um pouco menos das drogas etílicas que o faziam se levantar com uma enxaqueca desgraçada. Ressaca, um mar de ressaca mexido e gelado. Pronto para um mergulho. Mexido, um ovo na frigideira como consolo de um café da manhã vazio.

Sonolenta preguiça. Olhou para ela e sua indolência permanecia imóvel Queria dormir, queria simplesmente padecer um pouco mais para a vida. Um último gole na caixinha do Toddynho e a língua passando entre os dentes com resquício de gema. Clara era a resignação intrínseca ao desejo sobre tudo o que ele sabia que precisava dizer. Algo que não sabia o quê. Arriscou um bocejar sorrateiro e suspirou com um ar de quem vive exilado na rotina. E finalmente foi morrer em paz junto dela, naquela cama fria e o ressonar sem sol daquele cômodo incômodo amarelado, com infiltração no teto.

Anúncios

setembro 24, 2007 at 2:44 pm 25 comentários

Poesia Cretina, Feita de Café Aguado e Leite Desnatado

café Padaria cheia nessa manhã quente. São só 8h da manhã e eu já peço apenas um café com leite urgente, sem fazer média com meu estômago de avestruz. Pessoas passando velozes, terno, rostos, blazer e negócios. Meus olhos espiam os passos largos e vagos dos maltrapilhos rumo ao trabalho em plena manhã ensolarada de segunda-feira, neste dia qualquer de setembro. Eu pensando em ontem, naquele espaço estreito em frente à Joana Angélica, Posto 9 em Ipanema. Praia, queijo coalho e cerveja gelada. Deixei o astro-rei marcar meu corpo com seus raios e estampar a marca da sunga na minha coxa alva. Cheiro de mar, sundown, maconha, areia fofa e o perfume moribundo de algum subalterno aos prazeres cariocas escondido entre as cadeiras, kangas e guarda-sóis. Tudo isso misturado ao som dub do reggae, funk, pagode, axé e rock vindo das barracas que vendem suco suspeito, coco com pouca carne, sanduíche natural seco e sonhos molhados, que saem sinuosos entre as espumas do mar. Eu preciso da melodia da praia, ondas quebrando graves e brisa cantarolando agudo.

A música intermitente, ditada pelas buzinas e apitos dos guardas buscando uma multa certeira, me traz de volta à realidade. De raiva, tomo um gole rápido e queimo língua, garganta e humor. Vontade de entoar um “puta-que-pariu” e fugir disso tudo. Uns pingos ralos do adoçante e algumas assopradas longas se fazem necessárias para este pobre-nobre desejum. Remédio a curto prazo contra os males de uma semana que acaba de começar. Desejo estar longe de toda essa gente mecânica e tola, pagando o café no balcão e saindo apressada para agradar o patrão.

Já foi difícil encarar a condução lotada e, meu único alento, foi o decote da loira falsa sentada ao meu lado. Seus belos seios me fizeram lembrar dos sonhos oriundos de adolescente. Memórias covardes dos anos noventa, onde eu juntava mesada pra comprar revista de mulher pelada. Ainda me recordo da minha curiosidade, mas o tempo mostrou que todas têm pentelho preto. Exceto as ruivas.
Peço à atendente do balcão, que tem mechas rubras no cabelo encaracolado, para ligar o ventilador de teto. Mal humoradamente, ela me responde que está quebrado. Imagine no verão, neguinho deve cozinhar aqui dentro dessa padaria. Daqui a pouco começo a suar e chego ao trabalho pingando. Eu e minha mochila companheira, que é acessório obrigatório para representar a minha vontade de ir pra outro lugar.

Último gole. Café com leite é o melhor remédio contra o tédio matinal. Conforta minha garganta seca a cada sorvo vagaroso num copo de vidro sincero e me norteia na hora de me levantar, pagar a conta e sair rumo ao meu destino. Muito sol lá fora e um céu azul tamanho infinito. No verão não venho tomar café aqui. Vou evadir dessas coisas que só me fazem mal. Principalmente dessa poesia cretina feita de café aguado e leite desnatado. Tudo sem dor ou pão na chapa.

setembro 17, 2007 at 2:16 pm 26 comentários

Palavras que Nunca Darei a Ela

caderno O hiato vago entre um gole de vinho tinto e um trago no cigarro-mato eleva a minha lucidez. Leva toda a minha compostura pra longe. As cinzas do baseado caem sobre a folha do caderno, onde eu escrevi uma carta pra ela. Versos bobos, prosa branda e confissões picantes. Página branca virgem, estuprada pelas minhas letras ágeis e certeiras, escrevendo rimas soltas em cada traço órfão de um sentimento casto. Na melhor das hipóteses, seriam letras imaculadas.

Pego a garrafa e encho novamente a taça. Devolvo ao ventre cristalino do copo, o néctar de Baco. E o vinho jamais será uva novamente. Logo eu, solto no mundo, hippie da vida singela, andarilho de corações alheios. Não! Eu não posso me deixar levar pelos olhos castanhos dela. Já provei de todas as cores, mas essa não pode me entorpecer. E o pecador jamais será inocente novamente. Castanha do Pará, pra sanar a larica. Bagulho. Último suspiro-trago no fim da ponta. Orgulho. Último suspiro no fim das contas, onde trago ela no peito e na mente.

Eu sei que já é tarde, mas eu acabei de acordar. Daqui posso ver a chuva beijando o vidro da janela. Gotas lânguidas que escorrem a minha saudade fútil. A porra do vinho acabou e eu só tenho uma garrafa de água mineral sem gás quente, pra me embebedar. Tudo que me leva pra longe de onde ela está. Coloquei o som alto, com a música do The Cure que ela odeia. Uma que cantei no carro, antes de lhe dizer adeus.

Ainda estou segurando o caderno, onde rabisquei algumas de minhas emoções. Uma gota do vinho caiu em cima de um verso que fiz com sentimento “amor”. Está um pouco borrado, mas ainda daria pra ela enxergar meu rabisco-poema. Guardo cada verso com carinho, para que fique gravado em meu peito. Mas, cada linha vai permanecer ilesa, indecifrável. Pois esta é minha carta de despedida, uma folha com palavras que nunca darei a ela. E jamais vou dar. Culpa do hiato vago entre um gole de vinho tinto e um trago no cigarro-mato que elevou toda a minha lucidez. Levou a minha compostura pra longe.

setembro 10, 2007 at 2:38 pm 20 comentários


O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
----------------------------

Os textos deste blog estão protegidos pela lei nº. 9.610 de 19-02-1998.
Não copie sem permissão.
[Ácido Poético® - Todos os direitos reservados]

http://www.twitter.com/cazonatti

ø Textos Protegidos por Direito Autoral ø

Creative Commons License
Ácido Poético by Bruno Cazonatti is licensed under a Creative Commons Atribuição-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil License.
Based on a work at Ácido Poético ®.
Permissions beyond the scope of this license may be available by: cazonatti@gmail.com

Às vezes balbucio algo no Twitter: