Sem Glicose na Despensa

agosto 28, 2007 at 3:42 pm 37 comentários

Sem glicose na despensa E mais uma vez eu acordo no meio dessa madrugada fria. Enrolado nesse cobertor de nuvens, pés descalços no azulejo frio, passeando entre os corredores da minha mente, com você ausente. Na verdade eu nem existo sem você, tudo não deve passar de um sonho no qual balbucio o seu nome em voz alta. Não, a maldita dor no dedinho do pé esquerdo me lembra que é pura realidade. Eu sempre dou uma topada nessa merda de criado-mudo que sequer me convida para bater papo quando bate a insônia. E nessa hora eu me lembro que você deve estar com a cabeça recostada no ombro dele, ou até mesmo com as pernas entrelaçadas nas dele, mas o que eu posso fazer? Eu sou um idiota, também me acomodei.

O reflexo da minha sombra me assombra. E olha que nem a lua sorriu para mim nesta noite nublada. Vou tomar uma xícara de café enquanto vasculho a TV atrás de algo que preste. Nem o pornô barato do canal a cabo vai dar cabo à minha penitência. É saudade, vontade de estar com você. Tesão mesmo seria sua mão e um cafuné bom na minha cabeça, acomodada no seu colo. Pouco açúcar. Deve ter sido sal o que coloquei pra adocicar o meu paladar. Está passando Titanic novamente, e eu quase posso sentir o frio daquelas águas onde todos se afogam. Iceberg, eu sou exatamente aquele monte de gelo sem você por perto. Por que você não vem pra cá e se perde por aí comigo? Decide logo, pois ficar zanzando aqui na minha cabeça não vai ser bom pra minha monotonia sonâmbula. Eu prometo nunca parar se você não me pedir. Mas eu conheço as suas promessas feitas com a certeza que jamais serão cumpridas. Eu e meus fantasmas repletos de segredos furtivos.

Será que você ainda sente a minha falta? Está faltando açúcar nesse café fresco, vou requentá-lo. Eu só consigo ouvir esse tic tac do relógio, cadê sua voz? Tem um galo cantando lá fora, isso me deu uma vontade de comer canja. Engraçado, mas eu não sofro por você. O mais estranho é que nunca sofri de verdade, talvez tenha sido uma desavença do coração com meu peito. Isso tudo é porque eu nunca tive você, porque percebi que não poderia perder algo que não é meu. Olha, ontem me bateu uma insônia e eu só fui me deitar às 4 da manhã. Mais uma vez eu acordei no meio dessa madrugada fria e me lembrei que está sem glicose na despensa. Sofro demais com a falta de açúcar.

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Mamilo Divã Vermelho Palavras que Nunca Darei a Ela

37 Comentários Add your own

  • 1. Lorita  |  agosto 28, 2007 às 7:02 pm

    Vejo em vc um pouco de mim, uma auto-suficiência que só faz bem pra pessoas racionais [ou não]. É bom qdo se exercita a falta de alguém sem que isso faça doer ou sangrar por dentro, poucas pessoas conhecem a técnica e vc parece a ter dominado.

    Bjm

    Responder
  • 2. Lubi  |  agosto 28, 2007 às 7:56 pm

    Bruno, você me comove.

    Não falemos de saudade.

    Beijo.

    Responder
  • 3. J@de  |  agosto 28, 2007 às 9:08 pm

    Tudo que você escreveu sou eu nos fins de semana que meu filho passa com o pai dele… a falta, a saudade, a solidão… é claro que com muito mais lirismo!! hehehe!! Lindo!!
    Beijos!!

    Responder
  • 4. luana  |  agosto 28, 2007 às 10:54 pm

    uhuhu x)
    sonhos..

    me lembrou aquele musica..”eu não existo longe de vocêee a solidão é meu pior castigo..” e blácláclá..voltando..

    o que a falta de açucar nao faz.. Oo
    alucinações?fichinha.. confabulaçoes? passa adiante..!
    esse dialogo mente x coração é excelente!
    🙂

    muito bom escrito!
    namastê.. beijos doces..

    Responder
  • 5. Erika  |  agosto 29, 2007 às 12:18 am

    ai, tbm sofrí ontem com a falta de glicose na dispensa…. eu precisava de um leite condensado…

    mas adorei seu beijo estalado hoje… já adoçou minha noite.

    beijo… estalado…

    Responder
  • 6. elisabetecunha  |  agosto 29, 2007 às 2:38 am

    perfeito!!
    🙂

    Responder
  • 7. Flávia  |  agosto 29, 2007 às 10:23 am

    A sensação de perambular pela metade, embora conhecida por todos, é vivida com intensidades diferentes por cada pessoa. Alguns mais, outro menos, alguns poe passionalidade, outros pelo cotidiano alterado…. cada um tem sua forma de conviver com a ruptura.

    Execelente texto. Parabéns, adorei seu blog…

    Beijo!

    Responder
  • 8. Alê Namastê  |  agosto 29, 2007 às 12:24 pm

    A madrugada me presenteia com fantasmas do passado, como em seu texto.
    Creio, que a saudade gosta de escuridão e do silêncio.
    Cravo e mais açucar no meu copo, por favor!
    Beijos

    Responder
  • 9. Girassol  |  agosto 29, 2007 às 3:35 pm

    Saudades do que não foi, e jamais será.
    Nem sabia que isso era possível, até ter sido confrontada com o fantasma de alguém que nunca foi de carne e osso.
    E, embora tenha doses estúpidas de glicose no armário, o que eu gosto realmente é de sal!

    Beijos.

    Responder
  • 10. cabrita  |  agosto 29, 2007 às 5:21 pm

    de açucar e de carboidrato!! dá dor de cabeça!! mas sempre q me dá vontade um chocolate escuto um vozinha “chocolate é gordura pura”!! eu odeio gordura pura! qnto mais no meu chocolate!!!

    um beijo diet, não light!!

    Responder
  • 11. Rayanne  |  agosto 29, 2007 às 6:39 pm

    Eu pressinto sim, palavras silenciosas.
    Amargas de ausência, essa dor amarela
    e feroz que dilacera a carnes putrefactas
    da madrugada.

    Ah, eu sei que ardil, que dor é essa, e também
    aprendi que a dor não mata mas pode marcar.

    Mas aprendi que a dor pode intoxicar quando a gente
    represa e não deixa ela passar pela gente.
    Enxurrada, devastando tudo, sim. Mas depois seca
    e busca outro lugar.
    Quando a gente represa a alma envenena. Afoga.
    Até a poesia perde as letras de nadar.

    No silêncio macio dos olhos que me lêem,
    escrevo:
    A dor um dia vai embora.
    E nasce um amor no seu lugar.

    ***Estrelas, seu moço***

    Responder
  • 12. Carol  |  agosto 29, 2007 às 8:26 pm

    Aii que lindo e triste texto…
    gostei…
    beijo

    Responder
  • 13. iulo  |  agosto 29, 2007 às 11:29 pm

    putz, muito bom =)

    Responder
  • 14. babi soler  |  agosto 30, 2007 às 1:01 am

    Todos nós sofremos com a falta de acuçar e do que poderia ter sido e não foi.

    Responder
  • 15. alexandre  |  agosto 30, 2007 às 2:27 pm

    Impressionante como você escreve. Perfeito!

    Responder
  • 16. Camila  |  agosto 30, 2007 às 6:29 pm

    ai, eu tenho um medo de saudade.

    Responder
  • 17. Edna  |  agosto 30, 2007 às 6:51 pm

    Saudade é fogo!!!
    E muitas vezes nem sabemos direito do que sentimos falta.

    Responder
  • 18. Lubi  |  agosto 30, 2007 às 9:01 pm

    Brunoooooo,
    beijo.

    Responder
  • 19. elisabetecunha  |  agosto 31, 2007 às 2:25 am

    ADMIRO-TE!
    🙂

    Responder
  • 20. Ricardo F  |  agosto 31, 2007 às 12:43 pm

    Reduzir sal e açucar é uma boa idéia, comumente, os pratos que comemos todos os dias somados ultrapassam em 20% de glicose e cloreto de sódio a mais no nosso organismo. Talvez, essa tristeza, no futuro, venha lhe dar mais alguns anos de lucro.

    Responder
  • 21. B.  |  agosto 31, 2007 às 4:41 pm

    Fantásticos teus textos. Cada vez que venho aqui me surpreendo.
    Deverias lançar um livro. E rápido!

    Me identifiquei com esse.. tem um trecho tão igual que assusta.
    Com a diferença do sexo, claro.

    Beijo meu.

    Responder
  • 22. Luna  |  agosto 31, 2007 às 5:52 pm

    perfeito , talvez pq me encontrei em meio as palavras do texto ..

    Responder
  • 23. Menina Lunar  |  agosto 31, 2007 às 7:03 pm

    Ahh, que legal. Eu também divido minha madrugada entre a geladeira e os pensamentos.. rsrsrs

    =]

    adorei vir aqui!!
    beijo gigante.

    Responder
  • 24. ariane  |  agosto 31, 2007 às 8:11 pm

    noooossssaaaa! sem palavras amigo… daqueles textos que lemos em um só gole…
    a doçura do que se sente encoberto pelo amargo do que se pensa…

    muito bom, adorei a dinâmica de suas palavras!

    beijos glicosados

    Responder
  • 25. Rubina  |  setembro 1, 2007 às 10:27 pm

    Será que essa falta de açucar é no percurso tortuoso? Ou será que o coração não anda cheio de musa palpável? Beijo

    Responder
  • 26. Elza  |  setembro 1, 2007 às 11:41 pm

    Sem açucar não vivo!
    rsrs

    boa semana!
    =]

    Responder
  • 27. mila  |  setembro 2, 2007 às 8:58 pm

    “Eu prometo nunca parar se você me pedir”
    Everlong?? “You gotta promise not to stop when I say when, she said.”

    Quem sabe ele encontra alguém novo quando for comprar açúcar!

    ;*

    Responder
  • 28. Tânia  |  setembro 2, 2007 às 10:30 pm

    “Ás vezes te odeio por quase um segundo, depois te amo mais…teus pêlos, teu gosto, teu rosto, tudo que não me deixa em paz…”

    Em minhas insônias cantarei esta e lembrarei do teu texto…
    Beijo

    Tenha uma ótima semana…
    Ps.: Me empresta uma xícara de café ?

    Responder
  • 29. Daniel  |  setembro 4, 2007 às 12:23 am

    Fala Bruneca…Cada dia que passa fico mais seu fã. É um texto melhor do que o outro.

    Ah, pra quê perder o sono com as mulheres? O negócio é curtir a noite com os amigos e desprezá-las…Pode contar que elas vão ligar implorando por um carinho seu.
    Se der muita moral, o relacionamento desanda.
    Abraços!

    Responder
  • 30. camiles  |  setembro 4, 2007 às 3:27 am

    ai, ai, ai…
    ando tendo noites parecidas com a sua…

    Responder
  • 31. Julio Lagedo  |  setembro 5, 2007 às 4:26 pm

    Viado

    Responder
  • 32. Fina Flor  |  setembro 5, 2007 às 7:06 pm

    Coma um chocolate lendo um bom livro…. Não resolve, mas é bom, rs*

    beijos, querido

    MM.

    Responder
  • 33. Christiani Rodrigues  |  setembro 6, 2007 às 2:54 am

    O açucar é que nos move a vida. Bj

    Responder
  • 34. João Paulo  |  setembro 7, 2007 às 1:03 am

    Me senti assim na última segunda-feira, pois a minha amada esposa teve que pernoitar na cidade onde trabalha e, eu tive que rolar na cama por algumas horas até conseguir fechar os olhos. Quando isso aconteceu já era hora de me organizar para ir dar as aulas.

    Ufa! Saudade, às vezes, sufocam.

    Abração!

    Responder
  • 35. Rubina  |  setembro 7, 2007 às 4:49 pm

    Não culpe o açucar Bruno. Lute por ela, e faça-a sentir que é sua deusa. Beijo

    Responder
  • 36. Manu  |  setembro 10, 2007 às 7:41 pm

    Olá… ultimamente tenho tido insonias direto… talvez sejam os pensamentos que não param de jeito nenhum…

    Gostei do seu blog… bem bacana… alguns dos teus sentimentos esstão em sintonias com os meus…

    Bjus

    Responder
  • 37. Dayane Lisboa  |  agosto 20, 2014 às 11:36 pm

    Não sabia que VC escrevia, to surpresa e q surpresa agradável. Excelente texto, alem de inteligente, muito poético e realista.Parabéns!!!

    Responder

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O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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