Groselha

agosto 6, 2007 at 6:29 pm 31 comentários

Groselha E mais uma vez ele se foi. Sumiu há cinco horas, mas que parecem ser semanas de ausência. Desapareceu e agora ela não consegue se perdoar. Tristeza que consome a alma, que esmaga o peito num desespero quase-angústia. Fraca, se sentia frouxa por abdicar da felicidade em troca de um comodismo banal.
Vou comprar cerveja“. Foi a última coisa que ouviu dele.
Bebida…” – pensou. Mas, ele jamais colocou um pingo de álcool na boca. A rotina era tanta que ela só atentou para este mero detalhe meia hora depois. E após mais trinta minutos, arrependeu-se por tê-lo chamado de babaca, devido a sua outra paixão.

Ainda guardava sobre o criado-mudo do quarto, uma foto das férias de 2004, onde os dois abraçados acenavam para a lente. Friburgo, frio e chocolate quente. E a farra embaixo do edredom era a memória certa que a fez se lembrar de sorrir novamente. Calçou sua pantufa em forma de urso, presente que ele havia lhe dado para confortar seus pés gelados, e foi caminhando, trilhando os azulejos frios até a cozinha. A saudade era íngreme quanto o declive em seu peito. Árdua solidão. E com quem ela iria dividir a lasanha que estava assando no forno? Além dos problemas, ela agora compartilhava idéias a sós, com seu pano de prato bordado com a frase ‘Bom Apetite’ e o copo de plástico com o escudo do Flamengo, time do coração daquele homem ausente.

Servidos à mesa, massa, saudade e desespero. Temperados com arrependimento e lembranças boas. Slides de momentos inesquecíveis. Primeiro beijo, sexo prazeroso, danças descompassadas, pisadas nos pés, porre de refrigerante, beijo na chuva, trepada na escada, bronca dos pais pela porta do quarto estar trancada… Memórias boas, todas ali, na frente dela. E pra onde havia ido tanta felicidade? A única resposta estava na porta, por onde ele saiu para comprar cerveja.

Ela não suportava a idéia de não poder reclamar da vida com ele. Sem ele, pegou-se conversando com o ventilador de teto. Quando se virou para o lado vago na cama, onde ele deveria estar agora, deu de cara com o nada. Só o porta-retratos e Friburgo.
Nunca mais eu me meto, prometo. Vou o deixar gritar a vontade, não vou reclamar. Mas Deus, faça com que ele volte logo, por favor.” – fez uma prece antes de adormecer.

E mais uma vez ele voltou. Sumiu cerca de cinco horas, mas que pareciam ser poucos minutos. Estava cheirando a groselha e seu hálito tinha fragrância de alho. Culpa dos petiscos do bar, que acompanhavam a dor de cabeça proveniente do resultado de um jogo e das discussões banais dos homens realmente, babacas. Resolveu retornar ao lar e ficar ao lado dela, para fazê-la entender que a ama realmente. E também que é apaixonado pelo futebol. E resolveu pedir para que ela não peça mais para que ele escolha entre a lasanha ou o jogo na TV. Mas, o problema todo é que ela sempre tem razão.
Ora, mas ela também não quer que eu vá ao estádio ver a partida” – refletiu ao lembrar-se da discussão. “E justamente hoje, que o Mengão perdeu novamente…”

Dormiu com a roupa que voltou da rua, sequer tomou uma ducha ou pôs o pijama. Deu um beijo no rosto da sua amada e balbuciou:
Time de merda. Tem mesmo que cair para a segunda divisão”.
Desabou de sono, assim como sempre desmoronava ao olhar para os olhos de sua eterna amada. Fingindo estar dormindo, ela sorrateiramente se virou e sorriu. Fez um afago nos cabelos embaraçados dele e suspirou.
Babacas são aqueles que acreditam que se é mais feliz no passado.

Entry filed under: Ácidos.

Saciando Todos os Gostos que lhe Apetecem Viver 15 de Agosto

31 Comentários Add your own

  • 1. Christiani Rodrigues  |  agosto 6, 2007 às 6:52 pm

    Saudade de vc depois deste texto. rs… Excelente semana, Bruno!!!
    Chris

    Responder
  • 2. Marcelo  |  agosto 6, 2007 às 8:15 pm

    Olá bruno.
    Tive problemas com a senha de meu blog antigo.
    Que bom revê-lo, e vejo que continua na mesma boa forma de sempre.
    Parabéns.

    Um grande abraço e seja sempre bem vindo.

    Responder
  • 3. Erika  |  agosto 6, 2007 às 8:25 pm

    Amor sobrevivente nos defeitos… e desencontros…

    :o) Obrigada pelo elogio ao meu poema … e isso “lágrimas que sorriem para quem lê e sente…” faz rolar lágrimas de sentir… feliz.

    Beijos

    Responder
  • 4. Lubi  |  agosto 6, 2007 às 8:34 pm

    É verdade, babacas aqueles que acreditam que se é mais feliz no passado.
    Presente é presente. Felizes aqueles que percebem.
    Eu estou com uma saudade imensa e irremediável de você. Setembro está infinitamente longe. Embora os dias voem. Espero que até lá um pouco das coisas estejam resolvidas aqui.

    Um beijo, carioca. Um beijo paulista.

    Responder
  • 5. Nilza  |  agosto 6, 2007 às 9:56 pm

    Groselha é docinha..nada tem de acido…Se ele sumiu..o que fazer? Mas, chamar de babaca às vezes dá um gostinho bommmmmmmm Ainda que nos arrependamos depois..hehehehehehehe
    Beijos
    Voltarei
    estou em fééééériaaaaaaaaaasssssssssssss

    Responder
  • 6. julio  |  agosto 7, 2007 às 5:57 am

    mulheres tem o dom de solicitar provas de amor que elas sabem que ‘é’ bem em dia de jogo. não antes, tampouco depois. sempre será esse o dia em que ela vai preparar o seu prato favorito e vai usar aquele perfume que você adora.
    mas sempre coincidindo com a tabela do campeonato brasileiro.

    Responder
  • 7. Girassol  |  agosto 7, 2007 às 11:02 am

    O passado pode nos trazer um sem fim de boas recordações, mas felicidade que ficou lá atrás não “alimenta” ninguém, né?
    O presente pode ter os seus altos e baixos. Os seres humanos dentro das suas imperfeições encontram-se e desencontram-se… mas o amor é como uma estrela-guia que sempre nos leva de volta a casa. E não existe lugar melhor do que esse.

    Beijos.

    Responder
  • 8. Ju Cunha  |  agosto 7, 2007 às 7:17 pm

    Texto muito bom! Você escreve muito bem, parabéns =)
    Visitarei o blog mais vezes!
    Bjos

    Responder
  • 9. Lorita  |  agosto 7, 2007 às 8:13 pm

    Ufa ufa… era só futebol, a verdadeira paixão dos machos! rs…

    Bjm moço

    Responder
  • 10. elisabetecunha  |  agosto 7, 2007 às 9:13 pm

    BRUNO

    Gosto muito do que vc escreve!

    Responder
  • 11. Carol Marossi  |  agosto 7, 2007 às 10:36 pm

    Bruno, Bruno, mal pela ausência, mas essa cidade tem se apoderado das minhas extremidades todas, tanto que é difícil respirar.
    Como sempre, uma prosaica descrição dessas cenas tão cotidianas que vivem assombrando a gente. Bom demais.

    Beijos!

    Responder
  • 12. luana  |  agosto 7, 2007 às 11:09 pm

    ainn que saudade dos seus textosss
    eh sempre uma surpresa maravlhosa lê-los!! 🙂
    eu tbm sou doida por magia, energia, fantasias.. 😉
    primeira aula ontem, nem respirar direito tava conseguindo..:/ mô desequilibrio energetico..mas eu vou superando!

    voltar pra casa e poder esquecer oq aconteceu, pois afinal de contas o sentimento eh bem maior..delicia! me pergunto se algum dia terei isso? Oo

    x*
    namastê!

    Responder
  • 13. paldi  |  agosto 8, 2007 às 11:44 am

    Olá, achei seu blog lá na Fábrica de Histórias. Você é contra a CPMF? Então entra lá no meu e comenta.

    Responder
  • 14. Edna  |  agosto 8, 2007 às 1:21 pm

    É bom ter o que lembrar, mas melhor ainda viver bem o presente, né….ótimo texto, como sempre!
    Beijos

    Responder
  • 15. Fina Flor  |  agosto 8, 2007 às 7:51 pm

    Eu nunca namoraria um homem que trocasse minha lasanha por futebol, até porque eu deteeeesto futebol, kkkkkkkkk

    beijos, querido

    MM.

    ps: a noite ontem foi mágica. Você foi, afinal?

    Responder
  • 16. L.Inafuko  |  agosto 10, 2007 às 1:21 am

    adorei o texto!

    é… numa vida a dois a gente tem que saber ceder ou impor algumas coisas…

    passarei sempre por aqui XD

    bjuuus

    Responder
  • 17. Ana M.  |  agosto 10, 2007 às 12:52 pm

    lembrei de mim, há tempo que passou. me deu vontade de escrever um texto-resposta, pra dizer pra moça que tem problema, não. às vezes, é melhor comer a lasanha e só, mesmo. mas guardamos tanto em nós, pedacinhos espalhados por um isqueiro, um estranho que passou na frente do bar, um nome de livro, um versinho batinho. o mais de tudo é aprender a ser inteiro só. pq, talvez, só assim, solidão, conseguimos ser um todo, lembrando de um certo poeta que passou por mim, um dia, numa aula de patologia.

    bisou

    Responder
  • 18. Lunna  |  agosto 10, 2007 às 8:02 pm

    Então, amor é assim mesmo. Os defeitos são tão insignificantes.
    Ai ai ai. Adorei.
    Beijos

    Responder
  • 19. mila  |  agosto 11, 2007 às 12:58 am

    será que é só quando a gente sente falta que percebe o quanto alguém é importante?

    ainda bem que ele voltou, deixou de ser babaca.

    ps. o flamengo não pode caiiirr!! o.O

    ;*

    Responder
  • 20. João Paulo  |  agosto 11, 2007 às 1:30 am

    Pelo título pensei logo que fosse o sabor de um refresco de pacote que tomava na infância e, chamava de Ki-suco.heheheh

    Depois percebi que as metáforas davam novo sentido ao texto… Muito bom mesmo esse texto.

    Abração!

    Responder
  • 21. Mary  |  agosto 11, 2007 às 8:24 am

    Adorei o texto!
    Eu até trocaria a lasanha pelo futebol, mas não um jogo do flamengo! hohoho 😉

    Beijos!

    Responder
  • 22. elisabetecunha  |  agosto 11, 2007 às 8:44 pm

    beijo Bruno!!

    táótimo o texto!

    Responder
  • 23. Fina Flor  |  agosto 11, 2007 às 11:30 pm

    ei, menino, tem ‘pingos nos is’ lá no canteiro…….. Ou seja: alguns esclarecimentos sobre Mônica Montone…………. rs*

    beijocas e bom sábado

    MM.

    Responder
  • 24. Elza  |  agosto 12, 2007 às 2:21 am

    Ahh o querer superar qualquer coisa!!
    ótimo texto!!
    /boa semana.
    =]

    Responder
  • 25. Alê Namatê  |  agosto 12, 2007 às 1:30 pm

    Sirva-me um copo de sentimentos com muita groselha.
    Quem disse que vermelho é guerra não saca de vida…
    Beijos

    Responder
  • 26. Francine  |  agosto 12, 2007 às 11:22 pm

    Gostei 🙂

    Responder
  • 27. babi soler  |  agosto 13, 2007 às 12:17 am

    Essa é a mais pura verdade!

    Responder
  • 28. Rubina  |  agosto 13, 2007 às 2:40 pm

    Também sabe bem um final feliz de vez enquando. E como já ouvi dizer, se não acabou bem é porque ainda não acabou…lol…Beijão

    Responder
  • 29. Sonia Pallone  |  agosto 13, 2007 às 3:58 pm

    Lindo o seu blog, deixarei registrado aqui meu carinho pela sensibilidade dos seus textos. Que as palavras se renovem no seu coração à cada dia, e que a cada passo, você tenha uma história pra escrever, sentir e viver. Abraços.

    Responder
  • 30. Milla Loureiro  |  agosto 13, 2007 às 4:57 pm

    uma prova grande…
    ambos quando se amam tem q abrirem mão …compartilhar!!!

    Responder
  • 31. lunna  |  agosto 13, 2007 às 9:17 pm

    Seria ousadia convidá-lo a compor o cenário de meu novo blog?
    Coletânea Artesanal (www.coletaneaartesanal.blogspot.com)
    Basta um texto e uma breve descrição sua…
    Meu beijo meu

    Responder

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O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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