Amantes de Amora

julho 2, 2007 at 3:44 pm 21 comentários

Amantes de Amora Gole vago no café quente na manhã fria de domingo sem graça, sem ela. Pra curar a saudade e a ressaca. Olhava manchetes esportivas, notícias de anteontem e as capas de revista com garotas libertinas com seios à mostra. Tudo pra esquecer-se dela pelo menos por um instante. A branda chuva caía ao lado de fora da lojinha de conveniência e ele estava olhando para o guarda-chuva que ela havia esquecido em sua casa.
Mais parece um pára-quedas” – pensou sorrindo e sabendo que aquele guarda-chuva era o único refúgio para aquela tempestade de sentimentos, já que não podia se abrigar no abraço-afago daquela mulher. E a queda já estava explícita no semblante, no olhar e no que palpitava em seu peito. É o preço que se paga por ser apenas um amante sincero, intenso. E por isso, sentia na pele uma falta que vai além da cama. Um sentimento que vai crescendo.

Sorriu ao lembrar do sorriso alvo e dos olhos escuros dela. Era sempre assim, a memória vinha e ele se pegava sorrindo. Um prefácio de paixão que arde no peito, mas com uma pitada de sentimento-receio de medos e de mágoas, culpa de um pretérito imperfeito. No interior da loja, ele permanecia inquieto e com uma saudade latente misturada ao aroma do café e ao vidro embaçado dos seus óculos. Sentiu falta de açúcar e pôs mais duas gotas de sacarina para adoçar sua cafeína. E ele já não sabia o que é sentir a falta de alguém. No lado de dentro do seu coração, ela plantou sementes de amora, expandindo o espaço no terreno que, outrora, parecia baldio e enlameado. E a ramificação de sua amoreira crescia gradativamente.

O que será que ela fez? Magia?” – indagava a todo instante. Pois o seu coração-menino não queria mais sofrer aquilo que não podia controlar. Porque ele era um cara tão intenso e não se contentava em encontrá-la apenas em sonhos. Queria tato, toque, beijo e sorte. E ela presa em seu abraço longo e forte. Transparência para entender os limites e carinho, muito carinho para estreitar os laços e permitir-se. Cativado por ela, que semeou aurora com amora e germinou eternas memórias. Apesar de não pertencerem um ao outro. Apesar de serem agora, um do outro. Aguçando um sentimento que há tempo estava adormecido dentro deles.

Ergueu a xícara e brindou à felicidade. Porque até em dias nublados, os raios de sol se fazem presente. Deu o último gole vago no café quente na manhã fria de domingo sem graça, sem ela. Puxou a carteira e cantarolou para o caixa:
– Quanto fica o cafezinho?
– Cinqüenta centavos, senhor.
– Toma dez reais e me dê, por favor, dois drops de bala Halls.
– Qual o sabor?
– Amoras silvestres…

É o preço que se paga por ser apenas um amante sincero, intenso. Olhou para o céu e deixou a chuva cair. Não quis abrir o guarda-chuva, pois queria cantar e lembrar de cada parte dela a cada gota beijando-lhe o cenho. Pois ele sabe muito bem que perder-se também é um caminho.

Entry filed under: Ácidos.

Amor Em Vão Mercúrio-Cromo e Band-Aid

21 Comentários Add your own

  • 1. Bárbara P  |  julho 2, 2007 às 5:31 pm

    Amei amei. Puxa, Bruno, esse foi O post.

    Amei mesmo.

    Responder
  • 2. nathalie lourenço  |  julho 2, 2007 às 7:36 pm

    e que fim levou a acidez?
    dissolveu na chuva, era feita de açúcar?
    falei com carol marossi, se vier de novo pra sp, ela vem beber também
    :*

    Responder
  • 3. Caminhante  |  julho 2, 2007 às 9:12 pm

    Perder-se também é um caminho, sem dúvida.
    Este conto, sem dúvida, foi mais poesia que acidez.

    Abraços.

    Responder
  • 4. luana  |  julho 2, 2007 às 11:24 pm

    nosssaaaaa
    adorei o finalll..perder-se tambem é um caminho..e que caminho.. 🙂
    concordo plenamente!;)
    e qd se gosta desse caminho??por isso, eh importante tomar um certo cuidado.. Oo
    ah..se eu acreditasse em ter idolos..direi que virei sua fã, mas como isso não existe na minah humilde existencia.. gosto muitaoo do que vc escreve, a gente consegue criar tudo o panorama..e viajar junto..!!
    aiai.. quem flw q ser o outro ou a outra eh melhor?? hahahaah
    acho q fica sempre a sensação de vazio..afinal, somos todos humanos neh??

    namastê x**

    Responder
  • 5. Erika  |  julho 2, 2007 às 11:55 pm

    “Queria tato, toque, beijo e sorte”

    Eu adoro amoras 🙂

    Beijo

    Responder
  • 6. Jaque  |  julho 3, 2007 às 12:37 am

    Presentinho pra vc no meu mar. Passa lá quando puder

    Responder
  • 7. Rubina  |  julho 3, 2007 às 8:39 am

    Nem mais. Perder-se também é um caminho, o que estou a trilhar no momento 🙂 Beijo

    Responder
  • 8. Alê Quites  |  julho 3, 2007 às 2:17 pm

    Seu texto é como um beijo quente aqui no meu rosto.
    Você me remete a sentimentos mais esquecidos, sempre…
    Beijos*

    Responder
  • 9. Nilza  |  julho 3, 2007 às 3:48 pm

    Perder-se, encontrar-se antagônicos e tão próximos. Sentimentos de desilusão faz parte de amar e sinceridade. Vc está certo.

    Beijos

    Responder
  • 10. emiliacls  |  julho 3, 2007 às 6:53 pm

    hum…essa história de amar intensamente e ao final ser quem sofre pelo caminho perdido, eu conheço. Todos conhecem, alguma vez na vida se ama e se desilude.

    É melhor sempre achar o caminho em que a gente se acha perdido, afinal, sem amar a gente não se acha!

    hehehe

    otimo! sempre tens minha visita.
    😉

    Responder
  • 11. Edna  |  julho 3, 2007 às 9:08 pm

    Que lindo!!!!!
    Melhor amar por um momento, do que não amar jamais….

    Responder
  • 12. Fina Flor  |  julho 4, 2007 às 5:28 am

    Adoro amoras!!!!!!!!! rs*

    beijos, querido

    MM

    Responder
  • 13. elza  |  julho 4, 2007 às 6:24 pm

    Eu quero um guar-chuva para me prometeger da chuva de sentimentos que ando enfrentando!
    rsrs..
    =]

    Bjos

    Responder
  • 14. Cau  |  julho 5, 2007 às 3:02 pm

    Bruno…
    Aqui nem drops, nem amoras… Mas perder-se também é caminho. Saudade, sonho, lembrança… olhar sincero. E o que farão? Em sinceridade… talvez um dia pensem, como se pensa.
    E que a chuva caia e que até o caminho se perca.
    Texto maravilhoso, como sempre.
    (Sei que estou em ‘falta’ nos comentário, mas logo tomo novo ‘fôlego’ e retomo tudo igual. Agradeço suas visitas… sempre bom chegar lá no Mar e ler vc.)
    Beijo

    Responder
  • 15. anjoazul  |  julho 6, 2007 às 12:44 am

    “Era sempre assim, a memória vinha e ele se pegava sorrindo”

    Um ser-viver poético mais que perfeito!

    Responder
  • 16. João Paulo  |  julho 6, 2007 às 1:32 pm

    Cazo… quanta densidade textual!!!!

    Para compreender esse texto devemos desprender de todos os resquicios de bobagem e navegar em tão belas metáforas.

    Abração!!!!

    Responder
  • 17. mila  |  julho 7, 2007 às 1:06 am

    Tu tem um dom pra fazer histórias comuns virarem algo que emociona quem le.
    Achei lindo, e muito poético 😉

    Responder
  • 18. Carol Montone  |  julho 7, 2007 às 4:06 am

    Lindo, lindo lindo lindo….tô sem palavras que alcancem a beleza das tuas. Amei a metáfora do guarda-chuva…eu amo amoras….tudo em cada frase um bom gosto ….que germinou muitas das minha memórias…..só agora vejo o quanto estava com saudades…finalmente voltei…o ‘texto mais doce que um ácido pode exalar…demais……..
    beijos
    Carol

    Responder
  • 19. elisabetecunha  |  julho 9, 2007 às 10:20 pm

    Menino do céu!
    Túé criativo demaisss!
    🙂

    Responder
  • 20. lunna  |  julho 10, 2007 às 2:11 pm

    “Perder-se também é o caminho”
    Nossa, adorei a intensidade flutuante nesse texto. Acho que em algum momento perder-se é a única possibilidade. Me identifiquei com essa frase, como se fosse uma segunda pele ou uma vertente brotando de mim.
    O texto está fluindo intensamente, gosto dos seus escritos, a gente segue a cena e vive-a como se participássemos dela.
    Beijos e o desejo de uma ótima semana…

    Responder
  • 21. Christiani Rodrigues  |  julho 10, 2007 às 2:26 pm

    Amor, amora como é bom amar!

    Responder

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O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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