Amor Em Vão

junho 25, 2007 at 8:32 pm 41 comentários

Amor Em Vão Ela estava jogada naquele pedaço de chão, no vão entre um casal trepando na quina do bar e a porta do banheiro masculino. Maquiagem borrada, luzes foscas e uma poça de vômito ao lado de sua cara suja. Estúpida pintura do cotidiano, com odor de urina e baratas decorando azulejos cinza. Levantou-se cambaleando, segurando a bancada e pedindo, com olhar turvo, mais uma dose de compaixão ao garçom. A clemência em forma de cachaça. “Pura, como as freiras que jamais sentiram o tesão de um gozo” – resmungou em forma de arroto-desabafo.

Cabeça inclinada na direção do copo, que já serviu como mero recipiente de extrato de tomate. Agora, no fundo desse cálice fútil, um poço escuro com resto de um líquido transparente e certeiro, onde ela podia enxergar o sorriso dele. Menos de 30 segundos para uma paixão instantânea incendiar-lhe o corpo.
E a cada gole seco, a memória lhe dava uma surra com as imagens dos olhos e do cavanhaque falho daquele homem meigo, que lhe arranhou o pescoço e marcou o semblante.

Esperava mais de 2 horas, mas o prazer não veio com aqueles meros 5 minutos. Ela acreditou nas palavras dele ao pé do ouvido e nas promessas de uma aventura boa. Suspirou naquela amarga noite densa e esperou um orgasmo pra saciar os seus anseios. Mas, era sempre assim. Um sexo rápido, um cigarro e o barulho da descarga, levando a camisinha naquele rodamoinho de águas passadas. Sabia que este era apenas mais um dia ruim para todos que vivem a esperança de uma compaixão lúcida. Mesmo nunca estando sóbrio o bastante para crer na ternura de um sentimento tão ausente no cotidiano de um boteco.
Filho da puta” – bradou em silêncio

Acomodou-se no escuro de suas lembranças e mastigou um palito no canto esquerdo da boca, já sem o batom de outrora. Pediu uma, duas e algumas outras doses a mais. Pagou a conta com uma nota em dó maior e seguiu cambaleando até o toillet feminino. Abraçou o vaso e cantou um verso banal de um bolero qualquer. No mesmo tom em que aquele rapaz disse “gozei”. Enfiou o indicador goela adentro e despejou toda a sua angústia na dor privada. Um sorriso amargo em meio a uma poça familiar, com restos seus escarrados e dele, esporrados. Pois ela estava justamente ali, onde o conheceu. Jogada naquele pedaço de chão, no vão entre um suspiro de amor perfeito e um rolo vazio de papel higiênico.

Entry filed under: Ácidos.

Anseios de Voltas na Lua Amantes de Amora

41 Comentários Add your own

  • 1. Charlotte  |  junho 25, 2007 às 10:42 pm

    E que jogue a primeira pedra quem nunca esteve nessa situação… vomitando na privada um monte de promessas falsas. O mais estranho de tudo é aquele prazer obscuro que de forma inconsciente se apossa de nós em momentos assim.
    Eu adoro tudo o que você escreve e fico pendurada em cada palavra dos seus textos. Queria que soubesse disso.
    Li o texto anterior, do avião. Acho que quando você ama alguém, o pensamento alcança essa pessoa, mesmo contra a vontade dela. É como um torpedo certeiro. Um simples pensamento. E a maioria de nós não faz idéia da força que ele tem.
    Beijos,
    Charlotte

    Responder
  • 2. luana  |  junho 25, 2007 às 11:31 pm

    vou começar pelo titulo..nem um amor eh em vãoo 😛 iudh duihduihdiuh diuhdud
    plix, isso tem q ser verdade.. x)
    aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiih (vontade de gritar..)

    :/
    assim fica dificil ter esperanças..x*
    namastê

    Responder
  • 3. Andreas Malthus  |  junho 26, 2007 às 12:32 am

    E eu querendo vomitar, não o que me foi prometido, mas o que me foi mantido por um tempo como algo que seria por mais tempo…

    Responder
  • 4. Andreas Malthus  |  junho 26, 2007 às 12:33 am

    E eu querendo vomitar, não o que me foi prometido, mas o que me foi mantido por um tempo como algo que seria por mais tempo…

    Responder
  • 5. Andreas Malthus  |  junho 26, 2007 às 12:33 am

    Ótimo texto.
    Agora, sempre visitarei!

    Responder
  • 6. Andreas Malthus  |  junho 26, 2007 às 12:35 am

    Quando sairá o próximo texto!?!?!

    Responder
  • 7. Andreas  |  junho 26, 2007 às 12:35 am

    Quando sairá o próximo texto?!?!

    Responder
  • 8. B.  |  junho 26, 2007 às 4:05 am

    Nossa.. estou estupefada com a qualidade desse texto e a quantidade de coisas que me remetaram a um passado não muito distante e um presente incrivelmente cruel. Sem vários pormenores, claro.

    Parabéns, meu caro. Belo trabalho.

    Bisous.

    Responder
  • 9. Erika  |  junho 26, 2007 às 10:20 am

    Quantas vezes não ficamos assim, jogados como um trapo, de lado, à espera do que esperamos de alguém?
    Me impressiona a maneira tão real que vc escreve, Bruno, a gente vê tudo, enquanto lê.

    Beijos

    Responder
  • 10. Girassol  |  junho 26, 2007 às 10:31 am

    Ninguém consegue ser tão poético na descrição das histórias ácidas quanto você.
    Sinto um corropio na mente, os flashes de cada momento a passar-me à frente como se estivesse sentada numa mesinha a apreciar o azedume alheio.
    Ou então, como protagonista com vontade de vomitar uma história de memórias inúteis que provocam náuseas.
    Dá para ser tudo ao ler você, depende do momento de cada um. Parabéns pela criatividade e relação sublime com as palavras.

    Beijos.

    Responder
  • 11. Edna  |  junho 26, 2007 às 11:25 am

    É…cena triste….muitas vezes temos mesmo vontade de vomitar um momento ruim, um passado com uma história triste, que nos faz sentir no fundo do poço.
    Você tem a veia ácida de Nelson Rodrigues, meu caro, parabéns!

    Responder
  • 12. Nilza  |  junho 26, 2007 às 11:39 am

    Dadas as devidas proporções: nos reconhecemos nessa situação muitas vezes. Linguagem forte e bem colocada.
    beijos e bom dia

    Responder
  • 13. Ana M  |  junho 26, 2007 às 12:01 pm

    texto ótimo, musicalidade perfeita. adorei certas construções. só estou tentando desvendar a imagem,

    bisou

    Ana

    Responder
  • 14. Adrianne (dri)  |  junho 26, 2007 às 12:43 pm

    Bom dia, Bruno!

    Mais um texto com muita personalidade. Parabéns pelas palavras e situações tão marcantes.

    Beijos

    Responder
  • 15. milla loureiro  |  junho 26, 2007 às 1:25 pm

    O máximo,a realidade ácida dos seres,como um vômito qlqr depois de uma desenfreada noite de promessas,onde afogamos as mágoas nas bebidas!

    Responder
  • 16. Lubi  |  junho 26, 2007 às 3:42 pm

    O que eu disse de manhã. Sua acidez tem poesia em todas as frases.

    Admiro você.

    Beijo.
    :*

    Responder
  • 17. Aline  |  junho 26, 2007 às 9:05 pm

    Dá até vontade de te xingar, de tão bom que é esse conto! rs…

    Faço de seus contos, inspiração para os que um dia pretendo fzr, se a preguiça deixar, é claro.

    Bjm

    Responder
  • 18. Jac. C.  |  junho 26, 2007 às 11:35 pm

    Ousadia… liberdade às palavras… admiro tanto isso!
    Trago algemas no que escrevo.
    Bjs.

    Responder
  • 19. emiliacls  |  junho 26, 2007 às 11:40 pm

    😉

    como sempre…
    tuas letras são lindas.

    Responder
  • 20. emiliacls  |  junho 27, 2007 às 12:27 am

    o amor deixa a gente f**
    né não?
    quase sempre esse sofrimento é em vão, ou simplesmente não tem resultado, a gente dá uma descarga e ele vai embora. ahhaha

    :*
    http://www.esperasentado.wordpress.com

    Responder
  • 21. mila  |  junho 27, 2007 às 1:20 am

    triste, porém honesto.

    se fosse um amor em vão, não teria rendido tanta angústia e um pouco de vômito.

    beijo moço ;*

    Responder
  • 22. elza  |  junho 27, 2007 às 2:18 pm

    O amor as vezes rende coisas inesperadas!
    hehe..

    =]

    Responder
  • 23. lunna  |  junho 27, 2007 às 3:11 pm

    Acho que a privada sempre fica com o nosso amargo. Aquela parte de nós que desejamos jogar fora.
    Abraços

    Responder
  • 24. Paulo Fernando  |  junho 27, 2007 às 3:27 pm

    Como vc consegue transformar “porcarias” em coisas doces de serem imaginadas e lidas? Me ensina o teu segredo, please! rsrsrs

    Abraços, meu querido!
    Novamente, saudações tricolores!

    Responder
  • 25. Jaque  |  junho 27, 2007 às 8:20 pm

    Sempre poético e pouco ácido. Falar de amor é tão bom, né? Mesmo sobre aqueles que falham, que deixam dores…sempre é bom falar.
    Beijos
    Obrigada pela visita
    Vou te linkar

    Responder
  • 26. Lubi  |  junho 27, 2007 às 9:42 pm

    Um beijo!

    Responder
  • 27. Caminhante  |  junho 28, 2007 às 6:31 pm

    Acidez, sim.
    Mas poesia, sem dúvida alguma.
    Excelentes narrativas. Parabéns pelo espaço.
    Voltarei outras vezes.
    Abraços.

    Responder
  • 28. Nanna  |  junho 28, 2007 às 7:39 pm

    Oi Bruno…
    Vim te avisar que indiquei o seu blog no concurso cultural “As 7 maravilhas da blogosfera”. Passa no meu blog pra conferir, tá?

    Monte de beijinhos!

    Responder
  • 29. Fina Flor  |  junho 28, 2007 às 10:38 pm

    Nossa, que tragédia!

    E pensar que isso acontece na realidade com mais frequencia do que imaginamos, aff

    beijos, dear

    MM

    Responder
  • 30. Inpuro Sin  |  junho 28, 2007 às 11:01 pm

    Quem ainda não foi usado e depois se usou como recipiente pra bebida???

    Responder
  • 31. elisabetecunha  |  junho 29, 2007 às 1:27 pm

    Menino
    Quanta criatividade!!
    🙂

    Responder
  • 32. Christiani Rodrigues  |  junho 29, 2007 às 4:28 pm

    Saudades…bjo

    Responder
  • 33. Christiani Rodrigues  |  junho 29, 2007 às 4:29 pm

    Pode crer, ainda vou escrever assim um dia. Bjo

    Responder
  • 34. ELIANA  |  junho 29, 2007 às 6:55 pm

    Oi Bruno, tudo bem?…adoro ler tudo o que você escreve!!Demais!!Adorei a mensagem anterior também!!Parabéns!!Agora de férias, virei mais vezes aqui me “deliciar” com ótimos textos!!Bruno, desejo tudo de bom a você!!Um excelente final de semana!!Beijão!!

    Responder
  • 35. Fuini  |  junho 29, 2007 às 8:35 pm

    Que texto perfeitoooooooooooo!!!!!!!!

    Associações inteligentes, poéticas, uma água fria na cara!!!

    É isso aí, parceiro!

    Responder
  • 36. Tânia  |  junho 30, 2007 às 2:01 am

    Bruno, que perfeição…me avisa o dia da noite de autografos do seu livro, com certeza estarei lá…
    quanto a crueldade doce do texto…o que dizer perfeito…
    Beijão de excelente fim de semana…

    Responder
  • 37. Keila, a Loba  |  julho 1, 2007 às 12:39 am

    Texto forte, coeso e bem escrito. Há quem o reconheça como contista ou escritor aqui mesmo, agora imagina quando esses sentimentos forem acessados por mais gente?

    BeijUivoooooooooooooosssssssssss da Loba

    Responder
  • 38. João Paulo  |  julho 1, 2007 às 2:16 am

    Essa relação mantida entre os elementos do texto faz de você uma escritor diferente, dando força para continuar com tão sutileza de conexões para a feitura de um trabalho tão legal.

    Parabéns pelo texto!!!
    Abração!!!

    Responder
  • 39. Lorita  |  julho 2, 2007 às 1:28 pm

    Brunoooooooo

    Tou postando um conto no meu blog, vai lá ver se presta! rs…

    Bjm

    Responder
  • 40. carla granja  |  julho 2, 2007 às 3:11 pm

    olá . vou começar por dizer k no inicio nao me entusiasmou a tua historia,mas li até ao fim e conclui k por vezes uma pessoa só sonha com amores,ilhas,mar,amor,lindas historias de amor e por vezes se esquece k tmb há essas historias menos bonitas ,mas bem reais. se kiseres dá uma olhada no meu blog k é com poemas feitos por mim e têm fotos minhas tmb. http://paixoeseencantos.blogs.sapo.pt
    bjo. carla granja.

    Responder
  • 41. fernanda  |  maio 24, 2008 às 6:12 am

    bhá sem palavras tocante e com impiedade…
    algu comu a dor de uma mulher toda vez q se ve sendu usada com um simples propósito…
    e a dor e desesperu de ver mais um de seus dias sendu jogados fora,naquele botecu…

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
----------------------------

Os textos deste blog estão protegidos pela lei nº. 9.610 de 19-02-1998.
Não copie sem permissão.
[Ácido Poético® - Todos os direitos reservados]

http://www.twitter.com/cazonatti

ø Textos Protegidos por Direito Autoral ø

Creative Commons License
Ácido Poético by Bruno Cazonatti is licensed under a Creative Commons Atribuição-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil License.
Based on a work at Ácido Poético ®.
Permissions beyond the scope of this license may be available by: cazonatti@gmail.com

Às vezes balbucio algo no Twitter:


%d blogueiros gostam disto: