Rabiscos no Guardanapo do Aerocafé

maio 25, 2007 at 3:25 pm 28 comentários

Sentou-se na sala de embarque e aguardou a confirmação de seu vôo. Queria voar mais alto, mas não pôde. O céu era enorme e ele sabia que, apesar de cedo, era tarde demais.
O check-in estava pronto. O bilhete já estava no seu bolso esquerdo e a poltrona era a 6-A, na janela. Acima dos nove mil pés, quando o avião estivesse acima daquele edredom feito de nuvens, queria imaginar que elas fossem feitas de algodão doce. Pra esquecer o amargo da vida. Parou de sonhar quando de repente ouviu aquele sonoro e melódico anúncio “Varig vôo...”. Pra variar, atrasado.

Decidiu se esquentar com um Capuccino, já que não teve como conhecer aquela menina-mulher que lhe aqueceria com suas doces palavras. Na verdade queria uma caneca de vinho, porém queria estar sóbrio pra imaginar como ela seria, como ela sorria e como era aquela moça. Só a conhecia das trocas de e-mail e torpedos interurbanos. Só.
Era a primeira vez que ele voltava para a sua cidade frustrado, e com o dó por não ter o tempo necessário e merecido para encontrá-la naquela tarde fria de outono.
Queimou a língua ao beber aquele café pelando, quase gritou um “caralho!” pelo ardor ou talvez pela dor que carregava pelo insucesso naquele dia, longe de casa.
Fechou os olhos e pensou no que escreveria para ela, avisando que já havia retornado ao seu destino. Mas, os caracteres na tela do celular não caberiam. Pediu ao garçom um guardanapo e rabiscou uma poesia banal.

O alto-falante anunciou seu embarque. Ele pagou o garçom, levou a poesia no bolso de sua camisa, do lado esquerdo do peito. Talvez nem conseguisse suspirar, pois o ar estava preso dentro do seu peito.
Boa tarde senhor, seja bem vindo.
Quase inaudível a comissária estendeu a mão pedindo o bilhete. Erroneamente entregou o guardanapo com a poesia. Numa leitura veloz, ela ruborizada sorriu.
Belas palavras. Mas este guardanapo do Aerocafé não lhe permite embarcar, senhor.

Desfiz o erro e lhe entreguei meu cartão de embarque. Sentei na poltrona e paquerei as nuvens. Naquela tarde fria, de Capuccino quente, não tinha na mente a imagem daquela moça, apenas a vista da janela do Boeing 747. O sol ainda estava radiante acima daquelas nuvenzinhas cinza. Seus raios me fizeram compreender que o tempo compensa as pequenas eventualidades.

Rabiscos no Guardanapo do Aerocafé
“Apenas um dia nublado e frio
Sol radiando esperança
Vento gelado, cachecóis e casacos.
Vinho, alternativa pra aquecer
Nunca esquecer
Clima propício para agir menos
Refletir mais
Agora apenas o desencontro do tempo
E como uma folha seca e morta
Deixo o vento soprar-me de volta
E a temperatura da ternura continua a mesma”

Entry filed under: Ácidos.

Agave Tequilana Sobre Utopias e Desabafos Falhos

28 Comentários Add your own

  • 1. Lubi  |  maio 25, 2007 às 4:03 pm

    Ó/

    Que lindo!

    Ri com a parte em que você entregou o guardanapo para a aeromoça! Hahahaha. Só você mesmo…

    =P

    Beijo enorme.

    Responder
  • 2. Rubina  |  maio 25, 2007 às 6:08 pm

    Belíssimo. É doloroso essa espera nos aeroportos, mas acabou por ser engraçado a entrega do guardanapo. Abraço

    Responder
  • 3. Girassol  |  maio 25, 2007 às 9:55 pm

    Eis um texto que me fez esboçar um sorriso sincero. Se pudesse ver a minha cara, eu deixaria as palavras de lado, e faria apenas um singelo sorriso e aceno de cabeça, como quem quer dizer “este é um daqueles textos”… Bom, mas não interessa. O que importa é que gostei muitoooooooooo… =)))

    Beijinhos.

    Responder
  • 4. ana.  |  maio 25, 2007 às 10:18 pm

    Bruno…
    Q texto delicioso, td a desventura de um “encontro que desencontrou-se…” Interessante.
    Pelo menos ainda há…
    Beijos Poéticos.
    ;**

    Responder
  • 5. Nilza  |  maio 25, 2007 às 10:46 pm

    Adorei seu conto-poema!!!!!!!! Voltarei sim muitas vezes. Que mistura sensacional!!
    Beijos

    Responder
  • 6. elisabetecunha  |  maio 26, 2007 às 12:00 am

    Bruno
    vc tá escrevendo cada vez melhor!
    Parabéns!

    Responder
  • 7. Ricardo F  |  maio 26, 2007 às 12:14 am

    E os contralodres de vôo jogam paciência… 😉

    Responder
  • 8. wagner marques  |  maio 26, 2007 às 3:17 am

    ah, as poesias já estão exaustas de tantos guardanapos…
    elas mal sabem se limpar!

    gostei do blog!

    Responder
  • 9. Carol Montone  |  maio 26, 2007 às 3:42 am

    que tesão. me senti uma mosca vendo tudo o vivo…..puxa tantas coisas….
    saber que é tarde demais apesar de cedo…tenho sempre essa sensação sufocante….tô tomando um vinhoagora…mas o que eu queria mesmo era cosneguir agir mais e refletir menos…ao contrário da sua sugestão…..adorei seu post…no fundo a gente sempre fica no vento…..vagando nas nuvens de neuras, sonhos ou o que quer que seja e realiza muito pouco…mesmos sendo muito. E penso que para nós escritores essa sina é mais real ainda….
    cada menina é uma menina…cada segundo uma vida toda que nasceu e morreu e que de tudo fica só o que a gente sente…na presença ou na ausência…
    beijos e escreva sempre no aeroporto viu….dá muito certo…rs
    Bom final de semana
    Carol Montone

    Responder
  • 10. luana  |  maio 26, 2007 às 5:19 am

    nossaa
    🙂
    parabens viu??
    fiquei sem palavras..mas eh como vc disse: leia,releia, sinta..pod dxar!!
    🙂
    eh estranho qd a gente se dá conta que “apesar de cedo, já eh tarde d+..” ://
    pois eh..a vida nao te espera naoo rpz! acordaaaa mininaaaaaaa 🙂
    e a poesia..mas q linda..belas palavras!

    aiaia..quem sabe um dia luana (eu flo cmg msma)..

    namastê!!
    x**

    Responder
  • 11. Erika  |  maio 26, 2007 às 12:42 pm

    Acho que não tem nada pior do que esperar por alguém que não aparece.
    Eu fico furiosa, além de triste.

    E o texto mostrou um lado tão doce da tristeza que até me envergonhei da fúria de saber que tinha tomado um bolo. Fúria, parece tão agressivo, né? Não, nada agressivo, não mataria ninguém por isso. Choraria, que é o que faço a maioria das vezes qdo a raiva me aflora transbordando pelos olhos.
    Eu transbordo pelos olhos, diz um amigo querido, em várias circusntâncias.. até em comercial de pasta de dente.. rsrs

    Lindo texto, vc escreve bom de ler.

    Beijos

    Responder
  • 12. B.  |  maio 26, 2007 às 3:23 pm

    Tens um tato singular com as palavras, moço.
    É delicioso ler-te, de verdade.

    Bisous.

    Responder
  • 13. Marcelo  |  maio 26, 2007 às 5:05 pm

    Aiai…Em breve, muito breve, será a minha vez de estar nesse 747.

    Responder
  • 14. emiliacls  |  maio 26, 2007 às 7:10 pm

    bruno, to passando so pra dizer q mudei o end do meu blog 🙂

    http://www.esperasentado.wordpress.com

    bjo

    Responder
  • 15. Aline Ribeiro  |  maio 26, 2007 às 8:52 pm

    como assim?????????
    será que eu entendi direito??????????
    o cara foi atrás da mina e não a viu?????????
    UIa, se for isso, q pena, se n entendi o conto, vai desculpando aí, coisas de loira! rs…

    Responder
  • 16. Nilza  |  maio 26, 2007 às 8:59 pm

    Oi, Bruno!

    Que bela misturinha… Conto, poesia e bom gosto que vejo em vc.

    Beijos e bom domingo

    Responder
  • 17. Keila, a Loba  |  maio 26, 2007 às 9:45 pm

    Eu gostaria de evitar comentários emocionais, mas não consigo. Esse texto carrega o apelo de alguém tão leve quanto o vento, tão simples como o abraço, tão puro quanto o sorriso, e tão forte como um coração determinado.

    Hoje a acidez foi embora, mas restou a linda poesia, meu querido.

    BeijUivoooooooooooooooosssssssss da Loba

    Responder
  • 18. Bella...=^.^=  |  maio 27, 2007 às 12:17 am

    Oie… to passando por aki pra te convidar para um desafio.
    Escrever sobre 7 coisas, qualquer coisa. Passa la no meu blog e confira…

    bjusssss

    Responder
  • 19. Elza  |  maio 27, 2007 às 12:37 am

    Casa visita minha aqui, encotro um texcto melhor q outro!
    começe a escolher para publicar!!

    boa semana.

    =]

    Responder
  • 20. lunna  |  maio 28, 2007 às 1:38 am

    O que é a vida sem um guardanapo? Minha agenda guarda vários com anotações simples, complexas, algumas que ficaram sem sentido em breve e outras que me causaram sorrisos ou saudades…
    Bem, são apenas guardanapos daqui ou de lá.
    O lixo nunca os conhecerá…

    Responder
  • 21. Bárbara P  |  maio 28, 2007 às 3:31 pm

    Já pensou se ela fosse a moça do embarque???

    Ainda bem que existe sempre a possibilidade do retorno.

    Responder
  • 22. Alê Quites  |  maio 28, 2007 às 3:55 pm

    Bacana!
    Uma vez sai de BH e foi até Salvador conhecer uma amiga que fiz pela internet.
    Foi uma experiência muito louca e bacana ao mesmo tempo.
    Ainda hoje trocamos idéias pela net, mas agora ela mora no Canadá, quem sabe um dia ou apareça por lá…
    Beijos*

    Responder
  • 23. Alê Quites  |  maio 28, 2007 às 3:56 pm

    Ops!!!
    Fui ao invés de foi, viu?!

    Responder
  • 24. J@de  |  maio 28, 2007 às 4:02 pm

    Eu gostei da mistura de prosa e poesia… um mix bonito prá um final tristinho…
    Beijos!!

    Responder
  • 25. Paula Estrela  |  maio 29, 2007 às 4:05 am

    Oi …

    Sim, também já tentei embarcar com um pedaço de papel …mas era um recibo do estacionamento kkkk
    Também já fui a uma cidade pra ver alguém e , por medo (no meu caso), voltei só com o gosto de “sol” por cima das nuvens…
    Apesar de hoje, achar que eu não perdi nada…
    E realmente o tempo compensa as eventualidades. Todas elas!

    bjos!
    Amei seu canto fora o fato que as letrinhas dos comentários ficam minúsculas e eu sou miope kkkkkkkkkk

    Responder
  • 26. Loba  |  maio 29, 2007 às 9:28 am

    Menino, li um monte de coisas! Gostei demais. Mas o que mais gostei mesmo foi de saber que vc é feito de restos de estrelas. Isto por si só já garante a luminosidade, com certeza!
    Amei a sua escrita, que de ácida tem o nome!
    Beijocas

    Responder
  • 27. Cau  |  maio 29, 2007 às 11:04 am

    Ai ai, Bruno…
    Sabe quando o sentimento é igual? Quando as nuvens parecem algodão, mas não são doces. Quando mesmo que vc olhe pela janela e lá tenha um nascer do sol exuberante a única coisa que vc vê são sua lágrimas refletidas na janelinha do 747?
    Pois é… por não ver, por ‘TER QUE’ deixar. Pela saudade do que foi e não foi.
    Esse texto calha direitinho com o som do Mar… tem lá… em qual rua… encostar.. na tua.
    Como sempre… saio daqui inundada de sentimentos e lembranças.
    Beijo

    BC: Cau, é sempre bom tê-la por perto. Seu mar de palavras também me é necessário. Beijo

    Responder
  • 28. Nilza  |  maio 29, 2007 às 11:34 am

    Olá!
    Meu tempo está meio pequenininho, mas vou arrumar um jeito de voltar para ler tudo que deixei de fazer.
    “É fascinante a possibilidade que temos de fazer nossas palavras e nossas emoções percorrerem o espaço virtual, levando a cada cantinho, a nossa realidade e os nossos sonhos!”
    Beijos
    Bom dia!!

    BC: Leia tudo, devore! Tem acidez com poesia, mas não dá gastrite não! Bjs

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
----------------------------

Os textos deste blog estão protegidos pela lei nº. 9.610 de 19-02-1998.
Não copie sem permissão.
[Ácido Poético® - Todos os direitos reservados]

http://www.twitter.com/cazonatti

ø Textos Protegidos por Direito Autoral ø

Creative Commons License
Ácido Poético by Bruno Cazonatti is licensed under a Creative Commons Atribuição-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil License.
Based on a work at Ácido Poético ®.
Permissions beyond the scope of this license may be available by: cazonatti@gmail.com

Às vezes balbucio algo no Twitter:


%d blogueiros gostam disto: