Graças ao Manél

maio 2, 2007 at 2:17 pm 34 comentários

Graças ao Manél Terça-feira de feriado, dia do trabalho. Estavam completando 10 anos de casados.
Chacoalhando o cabelo no chuveiro, enxaguando a memória em H2O, ela ainda lembrava com detalhes a primeira vez que o conheceu.
Querido, se não fosse aquele português a gente nunca estaria junto, né?
Colocando pedacinhos de papel higiênico em cada minúsculo corte no rosto, para conter o sangue O+ jorrando depois do barbear agonizante, ele concordou.
É, graças ao Manél.
Na época, ela sonhava encontrar o par perfeito, ter filhos e comprar um Home Theater. Publicitária pós-moderna, vivia apenas de idéias na cuca e alguns cheques-especiais para cobrir até o dia 10. Ele sonhava deixar a casa dos pais, queria ter um pitbull e comprar um barbeador elétrico importado. Advogado recém-formado, vivia de pequenos processos da vara de família.

Dia 1º de maio, Rua Primeiro de Março no Centro do Rio de Janeiro, em1997. Boteco simples, algumas mesas forrada com papel manteiga e copos de chopp, misturado aos pratos com diversos petiscos. Tudo regado ao sambinha-bossa-nova da malandragem. Ela foi rever uns amigos, beber um golinho de cerveja preta e cantarolar os versos famosos e os refrões eternos da musicalidade local. Belisca um aperitivo aqui, dá um trago no cigarro de um amigo ali e curte sua liberdade.
Ele entra afobado e suado, gravata frouxa e uma cara de desespero. Agoniado, pergunta ao português do balcão onde fica o toillet. Desde menino, nunca ousou mijar na rua. Voltou aliviado do banheiro e pediu uma garrafa de água com gás. Manoel, o balconista lusitano dono do recinto, confunde as garrafas, que têm os rótulos iguais e de mesma cor, e lhe dá uma de pinga mineira, das boas. Num gole só, foi-se o líquido e a lucidez. Visão turva. Bêbado instantaneamente. Ele nunca havia bebido uma gota de álcool.
Mas, lembro de tudo!
Lembra nada! Você estava zonzo e se eu não lhe puxasse pelos braços e lhe afagasse em meu colo, você ficaria jogado no meio do bar.
Mentira! Eu quem lhe chamei para dançar e você pisou nos meus pés. E me recordo, inclusive, que a senhorita estava de saia e camiseta básica bege, com um velho e surrado All Star verde musgo, combinando com seus olhos.
Então, por que você me disse que “meus olhos azuis eram lindos”?
Verde e azul são parecidos depois que você bebe pinga pensando que é água gasosa.
Terça-feira de feriado, dia do trabalho. Estavam completando 10 anos de casados. Sem filhos, mas com Home Theater. Sem cachorro ou barbeador elétrico, mas com lâmina de barbear gasta e uma garrafinha de pinga mineira na estante da sala. Para bebemorar mais um ano de união, graças ao Seu Manoel.

Entry filed under: Ácidos.

Sobre Casquinha de Sorvete e Felicidade Sobre Paixão Rubra, escrita em Negras Letras

34 Comentários Add your own

  • 1. Girassol  |  maio 2, 2007 às 3:26 pm

    Um Dia do Trabalhador, com grandes motivos para bebemorar (adorei esta palavra, eheh.. vou roubá-la para o meu vocabulário.. =) )

    Você não sabia que português tem “manias de santo casamenteiro”? ..rs
    É verdade, quando o Cúpido tira férias ou está de folga, lá vai um português substituí-lo, porque o amor não pode parar de perfumar o mundo.

    Beijinhos.

    BC: Querida, pode roubar sim, mas confesso que “bebemorar” não é de minha autoria. Acho que foi algum português que me ensinou isso. O nome dele era Richard McDrunk, eu acho. 😉

    Responder
  • 2. Caroline  |  maio 2, 2007 às 3:50 pm

    Graças ao Manél e à água gasosa 🙂
    Eita dia do trabalho bom esse!
    Abraço.

    BC: Tudo com H2O, até o suor do trabalho… Abraço não, beijo!

    Responder
  • 3. Bárbara P  |  maio 2, 2007 às 5:10 pm

    Graças à pinga mineira! Que, além de ser um santo remédio, é criadora de casórios!

    E vamos à ela!!

    BC:Vamos? Olha que eu sou fraco pra pinga e pra mineiras, hein? Ic!

    Responder
  • 4. B.  |  maio 2, 2007 às 5:34 pm

    Humm… acho que senti um quê muito pessoal nesse texto.
    Estaria errada? rs

    Beijocas.

    BC: Bom, todos os meus personagens têm um pouco de mim. Neste post, de repente é o All Star, mas tenho um preto e um branco, nenhum verde… 😉 Bjk

    Responder
  • 5. Anathalia  |  maio 2, 2007 às 8:46 pm

    Muito bom seu texto!
    Obrigada pela visita e volte sempre que quiser.
    Um abraço.

    BC: Vou e volto sempre. E você?

    Responder
  • 6. Lubi  |  maio 2, 2007 às 9:28 pm

    Quando eu te leio, eu sinto saudades.
    Não sei de quê.
    Talvez, um dia eu descubra. Talvez, um dia essa saudade me des-cubra e eu fico livre.

    Talvez, talvez.

    E eu poderia fazer um poema com o que sinto agora.

    Beijo.

    BC: Mas, já está feito, moça! Beijos

    Responder
  • 7. Sônia  |  maio 2, 2007 às 10:16 pm

    Que lindo…fiquei emocionada! Aliás hoje, estou uma
    manteiga derretida…rs

    Boa noite.

    BC: Manteiga derretida com sal, né? Beijos querida!

    Responder
  • 8. luana  |  maio 2, 2007 às 11:04 pm

    vivaaa o portuga mené..opss manel x)
    uhduidhidhuihdiudhuidhduhuidhuihd

    q historia interessante..:d allstar surrado eh oq háa de melhorr :D:D:D
    eh isso aih..se tem q ser q seja original \o/ vivaa!! e parabens pro casall 😉

    x**

    BC: Eu adoro quando vocês gostam desses meus personagens e as vezes se encontram neles. Vai dizer que você não tem um All Star também, moça? Bjk

    Responder
  • 9. Marcelo  |  maio 2, 2007 às 11:34 pm

    Então, é só ser indicado por alguém. Cacife é lógico e evidente que você tem, hehehe.
    Já, já será surpreendido com uma indicação e eu virei aqui só pra comentar: Não disse?Não disse??? =)
    Abração.

    BC: É, me surpreendeu. Um abração cara!

    Responder
  • 10. Christiani Rodrigues  |  maio 3, 2007 às 12:09 am

    Gostei de tudo aqui…aconchegue-se então com seu ácido poético. Acho que eu sou mais melosa…rs…e dramáááááááááááááática…como gritaria Galvão Bueno nos ouvidos dos telespectadores…rs…
    Bem vindo.

    BC:Eu até deixo você gritar, Chris. Mas, Galvão Bueno não. Pelamordedeus… Beijocas

    Responder
  • 11. ELIANA.  |  maio 3, 2007 às 12:59 am

    Olá meu amigo Bruno, que legal esse seu texto!!Uhuuu e viva o Dia do Trabalhador!!Tudo de bom a você, querido e …apareça hein!!Estou com saudades!!Beijão!!

    BC: Estou sempre por lá, Eliana. Só não fui no dia 1º. Afinal, também sou trabalhador, né? Beijoca

    Responder
  • 12. Cau  |  maio 3, 2007 às 3:32 am

    Oi Bruno,
    Sobre o award só fui indicada e informada q deveria indicar mais 6 blogs do Blogger. Uma pena, pois o ‘Ácido’ estava na minha lista.
    De qualquer forma acho q o Marcelo (Amenidades) tem mais informações q eu. E no momento, tô com a mão direita imobilizada, fazendo um malabarismo como falsa canhota pra escrever algo. Assim que tirar a tala entro em contato.

    BC: Eu queria responder algo pra você, escrevendo somente com a minha mão esquerda. Desisti. Levei 5 minutos pra finalizar Eu queria resp… Bom, tentei. Beijo

    Responder
  • 13. formiguita bipolar  |  maio 3, 2007 às 7:37 am

    Um dia do trabalhador diferente,sem dúvida, e que haveria de marcar todos os outros, que ainda estavam por vir!
    Reconheço-me nesses diálogos de casal que relembra o seu passado.
    Muito bom!
    ***

    BC: O passado de todos aqueles que mantém vivo na memória, as lembranças felizes e coloridas

    Responder
  • 14. dän  |  maio 3, 2007 às 6:30 pm

    ops.. voltei voltei…rs. vc mudou a imagem do titulo ou é impressao? adorei. bom, estou de volta… beijinhos.

    BC: Não mudei não, mocinha. Está sempre ácido mesmo. Que bom tê-la de volta.

    Responder
  • 15. Carol Marossi  |  maio 3, 2007 às 7:43 pm

    Lembranças são ótimas, ainda mais se recordadas a dois.

    BC: Com certeza, Carol.

    Responder
  • 16. elisabetecunha  |  maio 3, 2007 às 8:55 pm

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    vc é ótimo!

    BC: Eu não, a cachaça mineira sim…

    Responder
  • 17. Coluniandos  |  maio 4, 2007 às 11:27 am

    É tudo assim, simples e perfeito!

    Responder
  • 18. Julio Lagedo  |  maio 4, 2007 às 2:15 pm

    Bruneca, falando em cachaça, precisamos visitar a CASA DA CACHAÇA na Lapa. Tava vendo um documentário sobre a cachaça e descobri algumas coisas bem interessantes.

    Exemplo: A cachaça chamava-se Paraty antigamente pois seu centro de produção era na cidade de Paraty, ou que Tiradentes em seu último pedido antes da morte pediu uma dose de cachaça, cometendo assim seu último ato de rebeldia…e por aí vai..

    BC:Ótima idéia, desde que eu não tenha o mesmo final que Tiradentes…

    Responder
  • 19. Lubi  |  maio 4, 2007 às 5:52 pm

    É difícil frear sentimentos quando peito parece que vai explodir.
    Sou intensa demais.
    E saudade vem assim, rasgando, fazendo sofrer.
    Porque quando a gente acha que é amor e acaba, duvida-se do que acreditamos.

    Um beijo.
    Bom final de semana.

    BC: Querida, o mundo dá voltas. em breve o peito explode de emoção por uma nova paixão, amor… só não podemos deixar de acreditar, a vida nos presenteia sempre com novos ares… Beijos e Bom fds também.

    Responder
  • 20. Daniella Living  |  maio 4, 2007 às 6:04 pm

    Provo sempre que possível dos teus venenos.

    Bjs!

    BC: Que bom, moça. Cuidado somente para não viciar. Abstinência é fogo… Beijo Ácido

    Responder
  • 21. Christiani Rodrigues  |  maio 4, 2007 às 6:58 pm

    Vou te linkar,ok?

    BC: Será um prazer de ponta cabeça…

    Responder
  • 22. Cau  |  maio 4, 2007 às 8:16 pm

    Ô Bruno…
    Que maldade a sua, tirar uma com a pobre da minha mão ‘entalada’? risosss
    Pois eu até me saio bem de falsa canhota, mas não posso abusar, se não engessam minha mão de vez e isso é a mooooooooorteeeee.
    (Já tô nos 5 min… rs)
    Passando hj no Mar vi sua resposta… e quem déra fosse pela sinuca, seria ao menos mais divertido… Ah… vc tá ‘linkado’ no Mar. Nem preciso digitar o endereço.. hehehehehe
    Beijoca

    ;oP

    BC: Se não foi a sinuca, então foi o quê? Sueca? Dominó? Beijos moça, vai cuidar dessa mão “entalada” de gaze.

    Responder
  • 23. eu, eu mesma, Rê  |  maio 5, 2007 às 1:05 am

    chamaste-me aqui estou [direto da aula, ó a musiquinha missao impossível roalndo ao fundo]
    argh esse teclado é imprestável, qdo chegar em casa comento mais descentecmente!
    =*

    BC: Rê, você por aqui? Que bom! Cuidado para o professor não escutar a trilha sonora… Beijão!

    Responder
  • 24. lunna  |  maio 5, 2007 às 3:08 am

    Um feriado a mais, uma família a mais…
    Gostei da passagem sobre a ausência do cachorro. Parece uma casa vazia, sem vida… Li sobre a beleza de uma criança e um cão numa casa antiga num outro blog do qual vim e me encantei. E agora chego aqui e leio sobre um casal…
    A madrugada promete.
    Abraços

    Ps. Obrigada pela visita.

    BC: Madrugada, dia, noite…

    Responder
  • 25. Sabrina  |  maio 5, 2007 às 5:00 am

    Oi Bruno,

    obrigada pela sua visita ao Jardim… e aquela terra é grande e adaptável a qualquer tipo de semente, inclusive aquelas ácidas e cheias de poesia… portanto, semeie o quanto quiser; saber que seus pensamentos e sentimentos estarão germinando em um lindos girassol lá no Jardim, para mim, será um imenso prazer e uma grande alegria!!!! 🙂
    Adorei isso aqui e, se me permitir, voltarei!!!
    Obrigada pelo seu carinho e volte ao Jardim sempre que quiser, para regar seu girassol!!
    Um beijo especial no seu coração.

    BC: Volte sempre, adubando as nossas palavras. Outro beijo procê

    Responder
  • 26. Kesia Maximiano  |  maio 5, 2007 às 9:01 pm

    E haja dia do trabalho pra bebemorar…

    BC: Tim tim!

    Responder
  • 27. BinhoSampa  |  maio 5, 2007 às 11:12 pm

    E viva o português!!!! Espero que apareça sempre o Manuel!!!

    Abs e Inté.

    BC: e as Marias também, ó pá! Abraço!

    Responder
  • 28. Paulo Fernando  |  maio 5, 2007 às 11:48 pm

    hahahha… O que seriam dos homens – e de algumas mulheres – se não fossem as boas pingas da vida?
    Amém!

    Muito legal, meu caro!
    Abraços

    BC: Assim seja…

    Responder
  • 29. Clara  |  maio 6, 2007 às 1:17 am

    Sugestão: um cachorro…!!! Será que pode?!

    Beijinhos.

    BC: Olha, eu tenho uma cadela que amo de paixão… acho que no próximo texto vou inserir um canino.

    Responder
  • 30. Blogue da Magui  |  maio 6, 2007 às 3:02 pm

    Belo texto. Gostei. Ainda mais em saber que sua mãe o ensinou a não fazer xixi na rua. E vc aprendeu. Parabéns!!!!!

    BC: Mas, eu faço xixi na rua sim… O personagem não, mas eu, na hora do aperto, procuro sempre uma arvorezinha…

    Responder
  • 31. elisabetecunha  |  maio 6, 2007 às 9:15 pm

    Tenha uma bela semana cara!

    BC: Igualmente, querida

    Responder
  • 32. J@de  |  maio 7, 2007 às 4:14 pm

    Porque tinha mesmo que ser, porque uma garrafa de pinga em vez de água acaba com qualquer um!! hehehehe!!
    Belo texto!!

    BC: Pinga nimim! Beijos!

    Responder
  • 33. Juliana  |  maio 7, 2007 às 6:44 pm

    ai, que bonitinho!
    e tantos amores começam assim, nos bares da vida…. o meu começou num forrpo, e lembro de tudo, até hoje!

    bjo

    BC: Forrpo? O que é isso? Um tipo de forno? o_O

    Responder
  • 34. cris  |  maio 8, 2007 às 1:35 am

    Realmente, vc é um ácido que emana vida…adoro tudo por aqui!!
    beijão, Cris

    BC: Que bom, Cris. Servir bem para servir sempre! Beijoca!

    Responder

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O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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