O Vendedor de Sonhos

abril 9, 2007 at 12:43 pm 17 comentários

O Vendedor de Sonhos Segurava a taça de vinho na mão e os olhos se deixavam perder no nada. O corpo estava presente e a alma longe, além do horizonte. Risos, conversas e degustação ao seu redor. Chocolates adoçando a boca de todos, felizes, sorrindo, deflorando os embrulhos dos ovos. Observava as crianças puras brigando pelo “Sonho de Valsa”, o bombom mais gordinho naquela caixa amarelada. Sorria e se lembrava de seus áureos tempos de menino, caçando as pegadas de um suposto coelho pela casa. Vigiava os sorrisos enferrujados de quem estava por perto. Estava só, ali naquele canto do restaurante lotado de pessoas cretinamente felizes. Não acreditava mais nas datas religiosas e se deixou petrificar pelo lado comercial das datas comemorativas. Largou a família, não participava mais da ceia e nem compartilhava os abraços calorosos no dia de Páscoa. A mulher o deixou por lhe achar um homem ausente. Frio, escolheu não ter filhos para evitar gastos. Perdera a identidade, só tinha o passado. Rosto sem emoção e expressão. Nem havia palavras para lhe fazer companhia. A bebida era a única parceira para distrair o peso das mágoas. O gosto do vinho era amargo como as gargalhadas alheias, ecoando pelo salão. Chamou o garçom, pagou a conta e saiu só. Não queria ovos, bombons, nem sorrisos. Queria apenas sua alegria de volta. Voltou para a sua fábrica e convocou seus funcionários para a próxima confecção. Sua riqueza vinha com os sonhos alheios e a esperança daqueles que acreditam na magia dos dias cinicamente comerciais. Após a produção de chocolates, ele queria agora lucrar com a chegada do dia das mães.

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Vida Degradé Acordar para Adormecer Mais Um Dia às Claras

17 Comentários Add your own

  • 1. Alexandre  |  abril 9, 2007 às 4:57 pm

    Uma história triste hien?!?

    Responder
  • 2. Bruno Cazonatti  |  abril 9, 2007 às 5:17 pm

    Eu diria que é uma acidez pascoal, Alexandre.
    😉

    Responder
  • 3. Elza  |  abril 9, 2007 às 7:38 pm

    embruteceu com os ganhos!
    mto bom seu post!

    vc pode se aconchegar o quanto quiser.
    vou te linkar.
    =]

    Responder
  • 4. Girassol  |  abril 9, 2007 às 10:12 pm

    Acredito que esta história poderia retratar a vida de muitas pessoas que conhecemos, ou de quem simplesmente ouvimos falar.
    É uma verdade, existem pessoas profundamente solitárias, gente que afastou quem estava à sua beira (seja por qual motivo for), e que agora se vê resumida a uma mesa vazia, a maldizer a vida de quem verdadeira ou cinicamente é feliz.

    Existem muitas coisas que dinheiro nenhum do mundo compra, essas são geralmente as mais essenciais da vida, sem as quais nada faria sentido, e a nossa existência se tornaria um castigo.

    Beijo.

    Responder
  • 5. Leandro Jardim  |  abril 9, 2007 às 10:32 pm

    Bem bacana!

    abraço
    Jardineiro!

    Responder
  • 6. Andréia  |  abril 9, 2007 às 10:53 pm

    Muito bom o texto.
    Na realidade, a páscoa é a data comemorativa mais “comercial” pra mim, perdeu o sentido faz tempo.
    As pessoas acabam sendo escravas do consumismo por imposição dos comerciantes, até mesmo da mídia e da própria tradição.
    Datas tão significativas não poderiam ser tão banalizadas assim, né ?
    O significado da páscoa é esquecido e o número de ovos de chocolate aumentam.
    😉

    Ah! Obrigada pela visita, volte sempre que quiser, será bem vindo..
    Eu já gostei daqui!
    Bjos, até mais.

    Responder
  • 7. Alê  |  abril 10, 2007 às 12:47 am

    Todas as festas e comemorações tradicionais são temperadas pelas lembranças e desejos da nossa infância.
    O seu texto é divino, viu?! Toca aqui no peito como buzina; acorda a alma.
    Voltei!
    Beijos*

    Responder
  • 8. BinhoSampa  |  abril 10, 2007 às 1:47 am

    Uns compram sonhos, outros apenas sonham e outros vendem sonhos. Sempre vale a pena sonhar, não importa o tipo do sonho.

    Abs e Inté.

    Responder
  • 9. Coluniandos  |  abril 10, 2007 às 12:05 pm

    Todo dia…

    Responder
  • 10. Juliana  |  abril 10, 2007 às 12:35 pm

    que homem infeliz… 😦
    coitado!

    beijo

    Responder
  • 11. Milene Maciel  |  abril 10, 2007 às 5:34 pm

    Um vendedor de sonhos, por ironia do destino, sem sonhos…

    O destino prega muitas ironias por aí!

    Excelente texto!
    Nos faz pensar…

    É sempre bom vir aqui!
    =)

    Linkei você também!

    Beijão!

    Responder
  • 12. Julio Lagedo  |  abril 10, 2007 às 8:58 pm

    Desculpe-me pela ausencia amado amigo.

    Responder
  • 13. czarina  |  abril 10, 2007 às 9:57 pm

    tá explicado.
    ele se odeia um pouquinho

    Responder
  • 14. luana  |  abril 11, 2007 às 12:21 am

    🙂

    oi srito..”namastê” é uma saudação acho que hindu, mas não tenho certeza..
    quer dizer +- “o deus que habita em mim sauda o deus q habita em você” 😀

    poesias ácidas..gostei da idéia..sempre dxam marcas..Oo

    seu texto tem uma pitada de nostalgia que deixa marcas..;)

    pobre do homem que não mais consegue exnxergar num sorriso a verdadeira e mágica alegria de viver..mas será que ele ainda conseguia se lembrar de como viver?
    tão perdido nele mesmo..:)

    x* namastê!

    Responder
  • 15. Ivã  |  abril 11, 2007 às 3:07 pm

    A-mar-gura-dura-nin-guém-se-gura.

    Abçs

    Responder
  • 16. Elenita  |  abril 11, 2007 às 8:13 pm

    Nossa, fazia tempo que não gostava tanto de um texto na net. Prosa poética da mais altíssima qualidade! Um dia perdido, de uma personagem perdida, numa cidade perdida, em um devaneio perdido, fragmentado… Este seu texto somos todos nós. Nas nossas atribulações, confusões, alegrias e crises cotidianas. Estou feliz de o universo ter te conzido até a minha página para que eu fosse conduzida até a sua e até seu texto. Feliz. Volto mais vezes. Um beijo.

    Responder
  • 17. Carol Montone  |  abril 12, 2007 às 5:04 am

    historia trsite, mas honesta…as vezes a vida e cretina mesmo ate para os mais cretinos ainda…
    beijos
    Carol Montone

    Responder

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Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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