Archive for abril, 2007

Sobre Casquinha de Sorvete e Felicidade

Ácido Uma tarde qualquer como hoje, com brisa morna e sol forte. Sem hora marcada pra ser feliz, pelo menos nos ponteiros ligeiro do meu relógio de pulso cromado. Olho pra ela e pergunto sorrindo:
Amor, você é feliz comigo?
Sou, por quê?
Por que não é pra ser, é para estar!
Qual a diferença?
Pronto, lá vem ela me responder às indagações com outra pergunta difícil. Mas, eu queria saber mesmo. Acabei percebendo que esse negócio chamado felicidade é muito volúvel. Quer ver? Eu sou feliz quando tomo uma casquinha de sorvete, quando o Flamengo ganha… E não sou infeliz quando estou de dieta e não posso tomar a minha casquinha ou, se o meu time é goleado pelo rival. Então felicidade é um estado de espírito, certo? Não sei, estou tentando descobrir.
Para isso, concluí que preciso de mais estrada, de longas viagens e de um bom banho de banheira cuspindo espuma com bolhas coloridas. Pra me trazer novos reflexos e fragrância de um sentimento alegre com cheiro bom.
Pretinha, vamos comprar uma banheira de hidromassagem aqui pra casa?
Não temos espaço no banheiro
Então, como vou estar feliz sem fazer as bolhas?
Que bolhas, homem? Ta doido?
As bolhas coloridas de sabão!
Você parece criança. Vai na pia e pega o sabão. Depois que lavar toda a louça da janta de ontem, eu deixo você brincar com bolinhas de sabão.
É, de repente ela tem razão. Talvez eu ainda seja criança com obrigações de adulto. Mas, sem perder a essência da infância. Porque eu juro, ainda converso com as estrelas e proseio com o sol. E com isso eu fico feliz.
Amo-or….
Quié, homem?
Você está feliz comigo?
Estou, meu bem… estou.
Então pega uma cerveja na geladeira pra mim e coloca uma pipoquinha pra estourar no microondas. Vai começar o jogo. Se você fizer isto, vai me deixar muito feliz.
Querido, vai à merda…
Aprendi que a felicidade é feita de coisas pequenas.

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abril 26, 2007 at 4:33 pm 33 comentários

Um Cara Mais Saudável

Salame Sábado, oito horas e quinze da manhã. Minhas velhas havaianas brancas, um short florido, camiseta, um boné que servia para camuflar meu cabelo despenteado, eram os adereços na construção daquela minha imagem recém-acordada. Com uma bisnaga embaixo do braço e segurando na sacola o saquinho de leite tipo B, eu esperava o atendimento no balcão
– 300 de salame, por favor.
Todo dia eu penso em ser um cara mais saudável, mas um café com leite acompanhado de um pão francês com muito salaminho é indispensável aos pecadores do paladar menos requintado. Ao sair da padaria, passo por toda a feira que ocupa a minha rua. O início é fétido, com cheiro dos peixes de tudo que é tipo. Mais à frente, tudo se torna colorido em meio às frutas, verduras e legumes. Senhoras e idosos com as típicas sacolas de ráfia na mão, enchendo-as com inúmeras coisas saudáveis. Intimido-me e compro apenas um limão. Bem ácido, para respingar por todo o meu sanduíche de salame.
– Por que você não leva uma fruta, freguês? Tem uva, melancia, laranja seleta e lima.
– Não, obrigado. Parei de beber. Fruta só me presta com álcool.
Após retrucar ao feirante, sigo a rua em frente. Antes de chegar à Kombi, para devorar um pastel com caldo de cana, observo uma senhorinha chupando um pedaço de abacaxi. Ela deveria ter uns 90 anos e aparentava estar muito bem de saúde. Seu carrinho estava repleto de frutas, verduras e legumes. Ela olha de relance e me cumprimenta com um sorriso quase que melado. Eu a respondo apenas com os olhos. Depois desta cena, quase desisto do meu sanduíche de salame. Sabe, realmente penso em ser um cara mais saudável, mas hoje é sábado, oito horas e vinte da manhã.

abril 24, 2007 at 12:34 pm 27 comentários

Aterrissando em Mim

Bruno Viajando entre as estrelas. Furando as nuvens, como se fosse o Peter Pan. Está bem, sei que eu não sou mais um menino, porém, ainda guardo aquela louca vontade de me perder naquela imensidão escura salpicada de constelações infinitas, brilhando intermitente. O céu, negro e tão perfeito. Um espaço infinito e gigantesco que dá uma vontade de flutuar, voar por todo o manto escuro da noite, vigiado somente pela luz da lua. Olho lá pra baixo e vejo as pequenas luzinhas. Estradas, poucas matas e muita selva de pedra. Desânimo. Faz-me esborrachar na minha realidade. Cair no mundo sólido. Daqui a pouco atinjo o chão num aterrissar quase perfeito. Observo o horizonte e não tenho vontade de pousar tão cedo. Planando alto, perdendo aos poucos a altitude. De repente, uma voz doce e suave me faz cair de vez a baixo.
– Senhor, aceita alguma coisa?
Era a Sininho? A pequena fada convidando para voar no meu sonho?
– Vai querer algo, senhor? –insiste a delicada e mecânica voz.
Olhei para o seu minúsculo broche escrito: Cíntia da Silva – Comissária de Bordo
Sorrio amarelo e a aeromoça me oferece umas barrinhas de cereal e algo para beber.
Quase que desolado, não titubeio:
– Somente um copo de Coca, por favor.
De volta à realidade, com minha bebida na mão, deixo a turbulência em minha imaginação passar. Sem grandes sonhos nem grandes decepções. Viajando entre as estrelas, eu apenas ganho mais algumas milhas no meu cartão.

abril 18, 2007 at 10:11 pm 23 comentários

Shrek Pós-Moderno

Shrek Pós-Moderno Trajes de domingo. Ela usa uma calça de lycra grudada no corpo perfeito de quem gasta horas suando em esteira de academia. Ele sustenta uma pança perfeita de quem não se nega aos prazeres da gula. Casal normal, nada igual. Ela traz uma garrafa de suco de maracujá e coloca na mesa do jantar, para acompanhar a salada regada ao estilo light de viver. Ele põe o resto de vodka na metade do copo e mistura ao refresco calmante, só para turbinar. Ela reclama, ele não esquenta. Comem em silêncio. O telefone toca e ele sabe que, pela hora, é a sogra. Blábláblá daqui, nhénhénhé de lá e com a janta interrompida, ele bisonhamente desliga a TV, põe o cd do Rolling Stones e tira a roupa. Nu em pêlo, baila trôpego ao som de Mr. Jagger entoando “I Can´t Get No, Satisfaction”. Ela disfarça o riso, abaixa o rádio e vira o rosto para o seu Shrek Pós-Moderno mandando-o ficar quieto. Ela desliga o telefone, senta e termina a janta solitária. Em pé, no meio da sala, ele indaga:
Você acha que eu danço mal, graças ao meu porte físico?
Não. Mas, você pode se vestir, por favor?
Por quê?
Esse troço murcho balançando está me dando náuseas.
Então, ele volta cabisbaixo para a mesa e olha para o prato. Nada disso entrava muito bem em sua cabeça. Academia, puxar ferro, beber suquinho e comer folha, era uma lástima de vida. Queria ser normal, encher a cara com os amigos, jogar uma peladinha com a rapaziada e assistir ao debate esportivo pós-rodada do campeonato, bebendo uma gelada e degustando uma pipoca sem se preocupar com quantas calorias poderia ingerir por dia.
Murcho?
Ãhn?
Você disse
É? Por acaso estou mentindo?
Levantou-se resmungando, tomou uma ducha e foi fumar um cigarro na varanda. A nicotina lhe trouxe mais para perto da realidade. Olhou pra barriga e a culpou pela bronca de sua amada. O seu time perdeu de goleada, seu jantar não continha nenhum carboidrato e sua esposa o chamara de molengão. O que mais faltava agora, o divórcio?
Engordar após o casamento é um fato extremamente comum – ela ronronou ao se aconchegar ao seu lado na varanda. E eu te amo assim, do jeito que você é.
E você ainda curte esse seu pançudinho aqui?
Demais. Só não curto uma coisa.
Já sei. O meu murchinho aqui?
Não, na verdade eu não curto os Stones.
Ah, tá.
Então, ela colocou um CD e deixou rolar o “A Hard Day’s Night”.
Ela não tinha mais a calça de lycra e nem via mais nada sem viço em sua frente. Ele se sentiu querido, mas continuou bailando maljeitoso ao som dos Beatles. E os dois perceberam que amar é mais que esteiras e alfaces. É além do que se vê. O resto é invenção besta de gente que não sabe viver.

abril 16, 2007 at 10:58 pm 32 comentários

Pra sair Exausto e muitas vezes Pisado.

Paixão Desconfio das pessoas que afirmam que nunca sofreriam por uma paixão. Tudo bem que Romeu e Julieta são mitos no tema amor, porém, quem nunca ficou louco de paixão e sentiu aquela sensação doida que sobe pelas veias e parece espetar o coração? Talvez morrer seja forte demais, concordo. Mas, lembro-me da época em que realmente sentia esse ardor, essa idolatria por alguma mulher. E ficava horas me arrumando, perfumando, esperando… Encarava chuva, trânsito e dilacerava as unhas esperando o celular tocar. E a paixão fez com que eu vivesse de forma mais intensa, faça loucuras e me sinta realmente vivo. Ego, tudo é questão de saber que você é capaz de sentir-se um super-herói. Mas, a paixão acaba. Sim, acaba mesmo. Mesmo que não venha com prazo validade estampado na cara das pessoas. Muitas vezes a gente fica com marcas de paixão, mas ela se esgota. Pode virar amor, amizade e carinho. Até mesmo um aprendizado. Paixão sim, pra nos fazer sentir a vida queimar dentro do peito, naquela sensação deliciosa de espera, angústia, saudade e dor. Porque o amor é muito além da paixão, uma cumplicidade. Paixão, não! É tesão, vontade intensa, loucura. Sexo por prazer, não complemento ou obrigação. Não é virar pro lado e dormir, não é dor de cabeça nem cansaço. É pra sair exausto, amassado, mordido, rasgado e muitas vezes pisado. Desconfio das pessoas que afirmam que nunca sofreriam por uma paixão.

abril 13, 2007 at 3:02 pm 28 comentários

Acordar para Adormecer Mais Um Dia às Claras

Acordar para adormever mais um dia às Claras Aurora cor caramelo desembaça o vidro frio da janela. Alma pesada, remoendo a amargura e carregando o peso de um pretérito mais que imperfeito. Clara fecha as cortinas, puxa um cigarro e traga fundo, parecendo acordar para adormecer mais um dia. Parecia chover uma única nuvem em cima de sua cabeça. Os pensamentos trovoavam raios de angústia e arrependimento. Nos auges dos seus 37 anos, ela não se permite mais falar sobre amor. Senti-lo, jamais. Foi assim que afastou aquele homem dócil e gentil, que lhe presenteava com flores, bombons e cartas poética, repletas de sentimentalismo barato. Vivida, não queria se envolver com mais nenhum homem. Sofrida, apesar de nova. Clara perdeu 18 anos de sua vida namorando aquele traste, que a trocou recentemente por uma gazela sarada de academia. Não, não queria mais ser usada por nenhum homem. Preferia estar só, na insônia de sua madrugada interminável, com o barulho dócil de um silêncio ensurdecedor. Na memória, apesar da dor, lembranças das carícias, dos cheiros, mimos e dos fortes abraços de paixão e ternura. O tempo em que sentia o aroma doce da paixão e a força no palpitar do coração quando seu homem lhe invadia o âmago do prazer. Restou a casa vazia e a garrafa de vinho tinto derramada pelo tapete persa na sala de estar. Manchando cor de sangue uma página feliz de sua vida. Abriu novamente a cortina e jogou a ponta do cigarro pela janela. A luz densa da manhã bailava pela cortina de fumaça da nicotina e irradiava novos horizontes, porém a poesia morreu dentro de sua alma ferida. O relógio corre e o tempo escorre pelas suas mãos como areia. Seus olhos azuis são ocultados pelos seus negros cabelos e sua pele alva é pálida como o sentimento em seu peito. E sempre ao se lembrar de seu passado, um vento forte sudoeste lhe acerta a face e a atira sem piedade ao árduo e insosso vazio de sempre. Quando a aurora cor caramelo desembaça o vidro frio da janela, Clara burla sua alma e não se permite respirar os raios de sol.

abril 11, 2007 at 12:22 pm 12 comentários

O Vendedor de Sonhos

O Vendedor de Sonhos Segurava a taça de vinho na mão e os olhos se deixavam perder no nada. O corpo estava presente e a alma longe, além do horizonte. Risos, conversas e degustação ao seu redor. Chocolates adoçando a boca de todos, felizes, sorrindo, deflorando os embrulhos dos ovos. Observava as crianças puras brigando pelo “Sonho de Valsa”, o bombom mais gordinho naquela caixa amarelada. Sorria e se lembrava de seus áureos tempos de menino, caçando as pegadas de um suposto coelho pela casa. Vigiava os sorrisos enferrujados de quem estava por perto. Estava só, ali naquele canto do restaurante lotado de pessoas cretinamente felizes. Não acreditava mais nas datas religiosas e se deixou petrificar pelo lado comercial das datas comemorativas. Largou a família, não participava mais da ceia e nem compartilhava os abraços calorosos no dia de Páscoa. A mulher o deixou por lhe achar um homem ausente. Frio, escolheu não ter filhos para evitar gastos. Perdera a identidade, só tinha o passado. Rosto sem emoção e expressão. Nem havia palavras para lhe fazer companhia. A bebida era a única parceira para distrair o peso das mágoas. O gosto do vinho era amargo como as gargalhadas alheias, ecoando pelo salão. Chamou o garçom, pagou a conta e saiu só. Não queria ovos, bombons, nem sorrisos. Queria apenas sua alegria de volta. Voltou para a sua fábrica e convocou seus funcionários para a próxima confecção. Sua riqueza vinha com os sonhos alheios e a esperança daqueles que acreditam na magia dos dias cinicamente comerciais. Após a produção de chocolates, ele queria agora lucrar com a chegada do dia das mães.

abril 9, 2007 at 12:43 pm 17 comentários

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O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, balzaquiano. Um redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.
Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.
Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.
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