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Espectador Oblíquo
O guarda acendeu um cigarro e afastou o povo. Alguns metros marcados com fita amarela. Só faltava o giz para contornar a última posição do defunto. Sirenes. Um pequeno relâmpago anunciava a chuva. O bradar da trovoada veio junto com os primeiros pingos. Ninguém havia escutado o estampido. Foi assalto, ou vingança? Não se sabe a sentença. Só restou a carne morta com bala na cabeça.
O morto estendido no chão a um passo, a um olhar dos que trafegam pela rua. E são comentários dos que sentem repúdio, murmurinhos de quem sente pena. É um corpo qualquer, um indivíduo a mais à distância da multidão. O saco preto minimiza a imagem, mas a garoa virou dilúvio e as gotas da chuva carregam o sangue para o bueiro. Escoando todo tipo de sentimento. A dor dos parentes, o espanto dos transeuntes e o cansaço dos policiais, por mais uma estatística. Uma obra prima da sarjeta, em tela real.
Já tem rabecão e um cara carregando máquina fotográfica afastando os bombeiros. Queria registrar a posição, coisa de perícia. Gesto mórbido naquela calçada-caixão. As horas correm, a cena fica comum. Os olhos se acostumam com a violência. Sou mais um espectador oblíquo. Aos poucos pego meu rumo e volto ao cotidiano. Sem velar corpo, sem participar de enterro. Não me recordo sequer o rosto do morto. A tragédia é mais uma imagem na memória, mas a gente só se lembra das cores.
7 comments Março 31, 2009
