Archive for Dezembro, 2007
Do Chester ao Peru
É surpreendente como o natal pode se tornar insuportável por alguns minutos. Tudo tão enfeitado, jingles decorados e mesas postas. Meia noite tem ceia, mas desde o meio dia eu já estou bebendo umas latinhas de cerveja. Estou de saco cheio do computador, que me contempla com inúmeras mensagens de amor e paz, com e-mails hipócritas que me desejam coisas impróprias, camuflando o verdadeiro sentimento: que eu me dane. Vou até a sala ver o resquício da família. Está cada vez menor e eu sou o único com mais de 25 anos que ainda não tem filho. Sorrisos, alguns princípios de ‘olá, tudo bem, como vai?’ e aquele velho espírito natalino evitando que eu dê um soco na cara daquele parente filha-da-puta que só aparece em dias de festas desfrutas. Nada de novo, a não ser os piscas na janela em tom fosco.
Que delícia, ela veio! Minha prima continua a gostosa de sempre e eu, sem receio, não me esqueço da época em que lhe roubei o primeiro beijo. Faz-me delirar! Vestidinho vermelho saliente, de uma mulher que cresceu de repente e agora sabe o que é o verdadeiro brincar. Meu tio, com olhar suspeito, não esboça reação de despeito por eu abraçar sua filha cheia de trejeitos. No início é só blá-blá-blá, pelo menos eu já estou no meio do caminho antes de um verdadeiro embriagar. Vinho, champagne e até rabanada. Tudo para aquela noite ser devidamente degustada. Dá até para aturar a gritaria-correria da criançada, pois meus sonhos continuam meninos, assim como o meu tesão adolescente que não atenua a minha relevante libido.
Depois da ceia, na décima terceira taça de Prosecco, levo a prima para o quarto com meu papo matreiro e vamos direto da suíte ao banheiro. Está todo mundo bêbado na sala vendo o DVD da Simone. Um lixo. E eu que não sou tão prolixo me indago: ‘E daí que é natal?’ Do Chester ao Peru. Ela sem o vermelho do vestido e eu despido de respeito com a árvore genealógica da família. Emaranhados, com nossos sussurros e gemidos e o espelho do banheiro embaçado. Não deu tempo de pedir desculpas quando larguei a ceia e caí de boca naqueles seios. Bobagem chula, nada de censura ou muita candura para esperar Papai Noel chegar. Adrenalina sim, a mil! Antes que nossos pais nos achem e nos retirem deste encaixe, ou que a nossa vontade realmente acabe.
Boldo. Sabe como é? Excelente para ressaca. E o natal pode se tornar insuportável por alguns minutos, mas neste ano nem tanto. Conclusão tirada após ver minha expressão de deleite estampada no espelho do banheiro da suíte. Torço para que a água do mar, no dia 31, lave meus pecados sem limites. Pelo menos até o fim do Reveillon quero curtir tudo o que a vida tem de bom. Pois aposto que na virada, o vermelho será branco, um vestido que não vai me esconder nada. Nenhum pouco, a não ser os piscas na janela em tom fosco.
14 comments Dezembro 26, 2007
Malditas Cafeteiras Mentirosas
Fixado, posto de lado. Grudado. Criando raízes, enjaulado pelo sistema, em meio ao nada. Eu e a TV controlados pelo remoto ócio. Sentado de pernas pro ar, na cama ou no sofá, onde nem brisa branda passa e refresca. Somente a poeira me leva a um louco pensamento vago e vazio, inerte ao que me remete aos comerciais saudáveis da margarina sem gorduras trans. Tudo em promoção, até a minha alma sã. Sem gula, sem fome de ontem, sem fé no amanhã. Prefiro o cadarço desamarrado e o meu short de moletom furado que ganhei de meu bisavô naquele natal de 1984. Sem camisa, peito nu e barriga ao relento. Meus olhos um tanto quanto remelentos, esboçando a insônia de acordar para uma nova biografia. Acabou a libido e o sexo foi bom há algumas horas atrás. Sem tesão não existe nada pra me enxotar dali num choque de alta tensão, com mais de mil volts de evolução neuro-psicodélica.
Ah, se o mundo fosse além dessa verdade banal, seria bom sentir alguém me fazer o bem tão mal! Com direito a choro e mágoa. Ou uma garrafa de ponche pra tomar um porre de tudo que é fútil e que sacia a minha embriaguez vasta. O Raul Seixas me cantou uns versos velhos que são tão atuais, capazes de durarem até a próxima encarnação de Gandhi. Viés denso, encorpado. Como os campos repletos de soja, a força em forma de mato, que vira energia para um mundo ingrato. Culpa da indecência capitalista e da indústria petrolífera, que suga da terra seu sangue e aura, como se tirasse o café, como quem prometesse novos pães às famintas almas. Talvez o discurso aliene aqueles que acreditam num novo esplendor. Louvor! Malditas cafeteiras mentirosas. Prefiro o bule, ebulição de novas idéias que trazem ações eficazes para este novo embate. E eu, um mero mortal deste sistema boçal, continuo futucando o controle remoto procurando respostas no noticiário que me dita o que convém, o que é lícito ao desdém.
Não liga não! Eu mesmo não paguei a conta e cortaram o fio com a mesma navalha que rasgaram o meu peito, para entubar as ações do Estado. Prefiro estar excluído e não dar nem um pio sobre o que pensam a respeito de mim neste estado frágil, decadente. Não por culpa ou omissão, mas por minha força estar entre o vão do querer e o poder. Prefiro o pudor, uma ninfa nua e muitas horas de amor. Sem compromisso. Só umas gotas de orvalho e pedaços de queijo suíço. E assim, consigo encontrar as cores carmim a cada trago no cigarro mentolado com gosto de alecrim. E eu choro, murmuro e imploro: ‘vai embora, cadela!’ E ela nem me dá bola, pega a grana do pago-amor e some por entre as vielas. Eu quero que tudo se dane, pois mesmo que eu me engane, foi assim que aprendi a amar. Lástima. Eu posso encontrar alguma resposta no último gole em um copo cheio com as minhas lágrimas. Doces. Como essa minha insensatez salgada, que me dá a resposta exata e elucida que apenas sou verdadeiramente livre nestes meus pensamentos suicidas.
17 comments Dezembro 18, 2007
