Archive for Outubro, 2007
Uma História a Menos Que Vou Querer Deslembrar Junto de Tantas Outras Esquecidas
Se eu tiver sorte, amanhã acordo com uma amnésia etílica. Esqueço toda essa bobagem de que, até ontem, eu a amei com paixão. Talvez a culpa seja minha, por conta de uma noite de insônia perdida entre as garrafas de vinho e as de água mineral com gás. Mas não consegui fazê-la entender apenas com os gritos vindo dos meus olhares furtivos, ainda sóbrios. Ela também estava muito rouca para berrar sua surdez medíocre. Cega por covardia, medo. Torradas com margarina para saciar a larica não sanaram minha insana fome de porquês. E foi fácil me encontrar silencioso, naquele denso copo sujo com meu pecado covarde e uma gota de decepção alcoólica. Achei que a solução estaria no fundo da minha embriagues barata, ou soterrada entre os pedaços da imagem que eu construí dessa mulher-menina. Traiçoeira, verdade desleal com o sentimento que se renovava a cada dia. Com o abraço-afago e beijo-carinho que ela apenas usou. Aproveitou suas carências até sair pela porta dos fundos, batendo a porta sem dizer um digno adeus. Puto mesmo eu fiquei quando soube que sequer ela deixou o dinheiro para a conta de luz. Ainda bem que eu nunca fico no escuro.
As mudas palavras poderiam até cortar a minha lucidez. Mas eu só rasguei a ponta do dedo quando fui abrir aquele envelope preto, onde ela escreveu com letras cintilantes que era louca por mim. Não vou enfiar o dedo na goela pra forçar um vômito, apenas pela ânsia de me confortar com aquelas mentiras. Apesar de não estar preparado para essa poltronice, não me surpreendi. E as poucas frases que ela ousou pronunciar eram tão vagas, levianas, típica das mulheres que não conhecem o poder contido em cada tom, timbre, letra. Foda-se que ela me chamou de bêbado. Eu aprendi que nem tudo que pensamos, devemos falar. E eu ainda a deixei beber do meu vinho mais caro. O vinho chamado paixão. Também a ensinei que não devemos usar a nossa magia com qualquer um. Mesmo que queiramos pronunciar os sentimentos exaltados, por puro capricho do momento. Mesmo que devamos acolher dentro do peito, os que menos merecem. Por pura libido.
Um pacote de biscoito doce e uma taça rala de vinho seco. Só pra lembrar que eu posso até sentir saudade do nosso bailar, suar, conversar. Ic! Mas ainda tenho novas canções, transpirações e papos pro mês que vem. O desejo não cabe em mim, transborda. Mas tem que ser mútuo, não mudo. Ela poderia encontrar os meus mistérios. Mas sei que já violei seu corpo, desvendei suas fronteiras, provei do cheiro e do gosto. Gozo. Podia deixar que ela descobrisse todo o universo contido em meu olhar. Ainda bem que não deu tempo. Mexi em toda a percepção dela, baguncei-a com minhas taras várias. Só não deixei que ela metesse a mão na minha taça. Taça da vitória em perder algo que nunca ganhou.
Por um momento senti pena de mim. Culpa do maldito rádio, tocando aquela canção que foi melodia em uma de nossas trepadas de motel. Na verdade não. Realmente a culpa é minha. Apenas por guardar impressões erradas dela. O chato mesmo é que, na quinta dose, eu erro o alvo e desperdiço o vinho. Na verdade, nada no mundo que acontece comigo pode ser pior do que a ressaca do dia seguinte. Mas eu sóbrio vivo, mesmo ébrio. Sobrevivo. Outro gole, porre, dose. Tanto faz. O bom mesmo é a ressaca ética do dia seguinte. Um trago longo e pronto! Já não lembro mais dela. O presságio principal se cura. Pelo menos até a próxima fugida ao bar. Para me esquecer de tudo e fazê-la virar uma história a menos que vou querer deslembrar junto de tantas outras esquecidas. Burp!
23 comments Outubro 31, 2007
Fotografia Que Não me Revela em nenhuma Imagem
Fugiu pela tangente, deliberando ausência. Ela se foi correndo, em busca das fotografias que não me revelam em nenhuma imagem. Já era noite úmida quando escolheu as fotos e me deixou com as gotas de chuva e o vento gelado. Uivava um adeus frio e, sem o guarda-chuva, eu fiquei desprotegido dos pensamentos nublados e sombrios. Decepcionado. Tudo assim, sem agasalho ou palavra que define o adeus sem ser pronunciada numa cena de filme chavão.
Nem um abraço para me acolher, apenas a última poltrona do ônibus para me esconder. Pra aquecer, somente o som do Hendrix, com sua guitarra berrando e queimando alto no meu headphone. E fui gotejando tristeza de ponto em ponto, chacoalhando naquela condução-condição em que eu me encontrava. Vazio. Mesmo sem um final digno de poesia leviana. Chuva branda, tocando o rosto e inundando as perspectivas de um recém eclipse solar.
Tolice mesmo é imaginar que aquilo tudo era sorte. Talvez para que eu me lembrasse de tomar uma ducha quente e um café forte. O cafuné ficaria por conta da minha perspicácia em ser só, mesmo estando junto. Absurdo. Com tanta gente querendo compartilhar de afeto, eu solitário naquele deserto insólito da cama, na posição de um feto protegido pela placenta-edredom.
Posso sentir o amargo gosto da sua falta, mas tenho bastante adoçante na prateleira da cozinha. Aspartame para consolar essa falta de açúcar no sangue, na alma. Quem sabe no dia vindouro eu sinta uma saudade sua. Levemente doce, como o acre daquele seu perfume. Queria poder guardar o odor num frasco ou talvez numa moldura embalada a vácuo. Somente para colocar na estante, ou na parede da sala. Assim, sem pose. Como na fotografia que não me revela em nenhuma imagem. Para não esquecer jamais que você fugiu pela tangente. Pois, sei que café adoçado com gotas de chuva não dura para sempre.
26 comments Outubro 22, 2007
