Archive for Agosto, 2007

Sem Glicose na Despensa

Sem glicose na despensa E mais uma vez eu acordo no meio dessa madrugada fria. Enrolado nesse cobertor de nuvens, pés descalços no azulejo frio, passeando entre os corredores da minha mente, com você ausente. Na verdade eu nem existo sem você, tudo não deve passar de um sonho no qual balbucio o seu nome em voz alta. Não, a maldita dor no dedinho do pé esquerdo me lembra que é pura realidade. Eu sempre dou uma topada nessa merda de criado-mudo que sequer me convida para bater papo quando bate a insônia. E nessa hora eu me lembro que você deve estar com a cabeça recostada no ombro dele, ou até mesmo com as pernas entrelaçadas nas dele, mas o que eu posso fazer? Eu sou um idiota, também me acomodei.

O reflexo da minha sombra me assombra. E olha que nem a lua sorriu para mim nesta noite nublada. Vou tomar uma xícara de café enquanto vasculho a TV atrás de algo que preste. Nem o pornô barato do canal a cabo vai dar cabo à minha penitência. É saudade, vontade de estar com você. Tesão mesmo seria sua mão e um cafuné bom na minha cabeça, acomodada no seu colo. Pouco açúcar. Deve ter sido sal o que coloquei pra adocicar o meu paladar. Está passando Titanic novamente, e eu quase posso sentir o frio daquelas águas onde todos se afogam. Iceberg, eu sou exatamente aquele monte de gelo sem você por perto. Por que você não vem pra cá e se perde por aí comigo? Decide logo, pois ficar zanzando aqui na minha cabeça não vai ser bom pra minha monotonia sonâmbula. Eu prometo nunca parar se você não me pedir. Mas eu conheço as suas promessas feitas com a certeza que jamais serão cumpridas. Eu e meus fantasmas repletos de segredos furtivos.

Será que você ainda sente a minha falta? Está faltando açúcar nesse café fresco, vou requentá-lo. Eu só consigo ouvir esse tic tac do relógio, cadê sua voz? Tem um galo cantando lá fora, isso me deu uma vontade de comer canja. Engraçado, mas eu não sofro por você. O mais estranho é que nunca sofri de verdade, talvez tenha sido uma desavença do coração com meu peito. Isso tudo é porque eu nunca tive você, porque percebi que não poderia perder algo que não é meu. Olha, ontem me bateu uma insônia e eu só fui me deitar às 4 da manhã. Mais uma vez eu acordei no meio dessa madrugada fria e me lembrei que está sem glicose na despensa. Sofro demais com a falta de açúcar.

36 comments Agosto 28, 2007

Mamilo Divã Vermelho

Mamilo Divã Vermelho Sujeitinho maroto, subalterno a toda promiscuidade que os becos da Rua Ceará lhe oferecem. Famosa formosa Vila Mimosa, pulsando os bordéis mais desprezíveis e parindo prazeres mais vis ao pago prazer. Ele sempre brejeiro, camisa pólo e sapato rasteiro, desfilava sua libido sobre as pedras portuguesas das vielas rumo a um vértice qualquer. Vênus na cama. E nesse hiato dissimulado na forma de quina obliqua, qualquer macho encontra um lugar para aconchegar a sua vontade. É muito fácil se entregar aos prazeres capitais daquelas que oferecem ternura fútil pela vida difícil. Elas cobram barato por um gozo ausente.

Sentado no canto do bordel, ele pita um cigarro suspeito e devora a última azeitona no prato de aperitivos. Gosta de apreciar os movimentos moribundos das meninas e suas distintas etnias. Danças, beijos, instigações.
Vamos subir, gatão” – ronrona uma daqui. “Me leva pro quarto, querido” – murmura outra dali. Mas ele só gosta de observar, escolher entre tantas presas, qual seria o amor de mais uma noite.

- Garçom, por favor. Mais uma cerveja!

De gole em gole, ficava horas analisando os movimentos delas, cada dança e o movimento das meretrizes que destilavam a volúpia nos outros clientes. Quando trepavam naquele mastro no meio do palco, ele se arrepiava todo. Profissionais. Gostava daquele cheiro de puta e dos odores de sua roupas íntimas exalando sentimento erótico. Sexo barato e rápido. Vontades deltas.

- Me chamem a cafetina – bradou explodindo desejo.
Uma velha senhora com a maquiagem borrada lhe voltou atenção e escutou-lhe com ardor.
- Quero a melhor da casa. Pago o preço da banca!

Ofereceu uma negra corpulenta com gosto fel. Da carteira, 50 contos de réu e um quarto escuro, onde ele pôde saciar seu instinto como a voracidade dos animais famintos. Menos de 5 minutos ejaculou a lamúria dos fracos de espírito. Depois do fel, lembrou-se que não havia sequer um gosto de mel em sua boca.

- Vadias não beijam – pensou tolo.

Não queria adorno, apenas novas fendas. Pediu uma loira e depois uma ruiva. Borrachudo. A segunda tentava foi ainda pior, não conseguiu concluir no tempo estimado. Três ligeiros minutos que só serviram para abismar a loira. A terceira foi um consolo, nem esboçou virilidade. E com a cabeça encostada no mamilo vermelho da ruiva sortuda, confessou-a suas frustrações banais.
Sem nada de abstrato nem sentimento além do prazer escasso. De concreto, apenas os pés maltrapilhos da cama. O nhécnhéc enferrujado era sinfonia que vinha das molas de um colchão do quarto ao lado do seu. E o único sorriso de prazer vinha daquela meretriz anciã-cafetina, contando as cédulas entre seus dedos enrugados e encharcados de pecados. Lembrou-se que desde os 18 anos era isso. E agora com 25, não era diferente. Ele não se esquecia das palavras de seu urologista e ainda guardava na mente o vexame pela sua primeira vez naquele albergue, onde perdeu sua namorada após a festinha de faculdade. O que mais lhe deixou triste foi a frase final da ruiva, após se levantar rápido, pôr a lingerie e sair em busca de um novo freguês. Antes de atravessar a porta, ela ainda olhou-o e acertou:

- Liga não, isso acontece. Ejaculação precoce é típica dos sujeitinhos marotos, subalterno a toda promiscuidade da vida.

23 comments Agosto 20, 2007

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O Poeta Corrosivo:

Bruno Cazonatti - Carioca, com 3.0 Turbinado (balzaquiano) - Redator feito de resto das estrelas, que insere neste espaço os seus textos e segredos de muitas lembranças caladas, rascunhos amassados e a poeira dos pés da sua curta estrada.

Faz poesia barata com seus segredos revelados em textos compostos de desejos implícitos, e apimenta suas letras mudas, com contos imaginários, salpicados da acidez que aparece entre raios de sol e a tempestade de palavras com aroma de chuva.

Tudo isso, bem misturado às mensagens rabiscadas na essência da sua vida.

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