Archive for Julho, 2007
Saciando Todos os Gostos que lhe Apetecem Viver
Entrou correndo no quarto, atirou a bolsa na cama, tirou o sapato, despiu-se e mergulhou no espelho. Reflexo grande, para não se esquecer da menina, agora mulher. Pele, pêlos e gene. Decidiu colocar uma música, dedilhou a estante e puxou o cd do U2. Bailou ao som de ‘Desire’, no hiato entre a gaita, guitarra e sua lembrança grata, daquele rapaz que incendiou sua alma. E aquele sentimento novo lhe fez refletir sobre uma frase que ela leu ali, em algum livro de outrora, enfatizando que “nem sempre o essencial é visível aos nossos olhos”. Olhava sua imagem e não acreditava que, logo ela, dura feito pedra, ex-donzela que já sofreu por uma espera tola na expectativa da chegada de um príncipe, estava encantada por aquele homem. Paixão. Deveria ser mesmo a paixão que lhe invadiu o corpo, mente e os poros. Sim, pois ela ainda tinha o cheiro dele no âmago da epiderme, nas profundezas da alma.
Acendeu um cigarro e soprou um anel de fumaça torto, meio oval. Um círculo que ela imaginou ser o rosto dele. Uma fantasia causada pela magia de um sentimento sedutor. Euforia que já não sentia há tempo, alegria de dentro pra fora, coisa de quem aprendeu primeiro a se amar, antes de permitir ser por alguém. Colocou a guimba no cinzeiro que trouxe do motel e foi até a cozinha, preparar um sanduíche de mortadela. Sorriu ao relembrar aquela voz rouca lhe falando ao pé do ouvido que “É dentro de nós que temos que encontrar as respostas e o sentido da vida”. Fechou o pão e pensou alto:
- E a resposta dessa dor de estômago está neste sanduíche de mortadela.
E ela, que achava que tudo não passaria apenas de mais uma trepada, tinha agora a fome de viver um sentimento novo, devorando e engolindo bem devagar toda aquela saborosa emoção. Saciando todos os gostos que lhe apetecem viver. Jogou-se no sofá bege, abraçando a almofada marrom. Lembrou-se dos olhos dele, do perfume e do cheiro de aurora em suas roupas. Suspirou e quis olhar as estrelas. Direcionou seus olhos para a janela e foi aí que o sentimento mudou. Com a luz do quarto acessa e a cortina escancarada, viu dois adolescentes na sacada da varanda do prédio da frente com seus binóculos. Nua, escondeu o sexo atrás da almofada e correu pra trás das cortinas, fechando-as rapidamente
- Homens! – bradou fula.
Logo após o incidente, que alegrou os adolescentes e a fez ruborizar rapidamente, ela novamente se lembrou dele e de sua voz rouca “É dentro de nós que temos que encontrar as respostas e o sentido da vida”. Com as cortinas fechadas, mas ainda nua, ela teve uma de muitas respostas que ainda viriam. Naquele instante, sentiu-se como um prisma. Brilhando, resplandecendo cores sempre que os raios de sol apareciam ao lembrar-se daquele homem, que reacendeu a paixão dentro dela. E mesmo quando a noite chega trazendo a escuridão, o seu verdadeiro cintilar é revelado. Justamente por ela ter agora uma luz nova do lado de dentro. Uma chama iluminando paixão. Nesse momento, ela soube que nem as cortinas poderiam mais ofuscar a sua luminosidade.
32 comments Julho 26, 2007
Vida Remota
O copo, que antes era recipiente da geléia de morango, servia-lhe agora como guardião de duas doses de gim. Bucólico, como a melodia feliz da repórter do jornal local, anunciando mais uma medalha de bronze para o Brasil no Pan-americano carioca. E ele nunca foi patriótico, gostava de música americana e usava a cultura indiana para os prazeres libidinosos. Adorava ver desenhos, sentir fragrância de incenso e fins de semana com futebol, mesmo sem sol. Vida simples, com alegria apenas nas anedotas de botequim. E zapeava a TV, percorrendo os canais e as histórias banais dos enlatados pseudo-românticos americanos. O que mais doía era aquele troço no fundo do peito. Tipo a falta de estar vivendo um novo-primeiro-amor, ou dar novamente um primeiro beijo. Porque já fazia tempo em que ele havia esquecido o que era amor. Talvez fosse coisa de seriado, novela e filme.
Nostalgia de uma língua, um cheiro e um abraço terno. Sem gravatas para sufocar, ou pontos para marcar. Saudade de falar besteiras invadindo pupilas, conquistando espaço sem justificar que o sentimento correndo em suas veias é destilado à base de saudade, fogo, desejo e afeição. Forte, como o teor alcoólico de quem está precisando se embriagar de um afeto novo, com pitadas de paixão jovial. Levantou-se do sofá e deixou o controle remoto cair no chão, jogando as pilhas palito pra debaixo do rec da televisão. Resmungou e foi pra janela olhar o céu cinza e úmido. E ele, que um dia viu o mundo colorido, agora deixa a rotina cegar-lhe os olhos. Mas, naquela noite sem estrelas, concluiu que era um homem artificial e azedo. Entregou-se ao vício órfão, para não morrer na espera enrugada, envelhecido pelas marcas deixadas pelo álcool e as cicatrizes de lutas contra o presente-passado.
Vestiu bermuda, camiseta e All Star azul, cor-de-mar. Foi pro bar, só pra rimar mal-estar com jogos de azar. Comprou fichas, perdeu reais, aperitivou amendoim e calabresa acebolada. Bêbados, filósofos de bar, poetas medíocres e mulheres vulgares, tudo no entorno dos olhos de quem não se incomoda em ser mais um ébrio. O embrião da felicidade estava além dos goles e tragos concentrados em motivos que nunca poderiam ser levados tão a sério. Porque todo homem já sofreu por conta de uma mulher. Batons, sorrisos amarelos, pernas, coxas, coxinha de galinha, paqueras fúteis, cheiros, fumos e conversas compromissadas apenas em conquistar uma trepada no fim da madrugada. Amor? Talvez-jamais-novamente-um dia-quem sabe-nunca. E a fadiga de ganhar perdas toda noite é rotineira. Porque acordar no sofá sozinho com um hálito vazio, já é hábito vadio. Pra ele, basta uma torrada com geléia de morango pela manhã para adocicar-lhe a vida. Mas, o que mais doía era aquele troço no fundo do peito. Tipo a falta de pilhas palito no controle remoto da televisão. Porque já fazia tempo em que ele acreditava naquela tela de plasma que reinventava histórias de amor, produzia paixão e criava aquele sentimento vago pra toda a vida. Ainda que a sua vida toda dure apenas uma reprise do último capítulo da novela repetida às 14h, no ‘Vale a Pena Ver de Novo‘.
36 comments Julho 18, 2007
