Archive for Junho, 2007
Amor Em Vão
Ela estava jogada naquele pedaço de chão, no vão entre um casal trepando na quina do bar e a porta do banheiro masculino. Maquiagem borrada, luzes foscas e uma poça de vômito ao lado de sua cara suja. Estúpida pintura do cotidiano, com odor de urina e baratas decorando azulejos cinza. Levantou-se cambaleando, segurando a bancada e pedindo, com olhar turvo, mais uma dose de compaixão ao garçom. A clemência em forma de cachaça. “Pura, como as freiras que jamais sentiram o tesão de um gozo” – resmungou em forma de arroto-desabafo.
Cabeça inclinada na direção do copo, que já serviu como mero recipiente de extrato de tomate. Agora, no fundo desse cálice fútil, um poço escuro com resto de um líquido transparente e certeiro, onde ela podia enxergar o sorriso dele. Menos de 30 segundos para uma paixão instantânea incendiar-lhe o corpo.
E a cada gole seco, a memória lhe dava uma surra com as imagens dos olhos e do cavanhaque falho daquele homem meigo, que lhe arranhou o pescoço e marcou o semblante.
Esperava mais de 2 horas, mas o prazer não veio com aqueles meros 5 minutos. Ela acreditou nas palavras dele ao pé do ouvido e nas promessas de uma aventura boa. Suspirou naquela amarga noite densa e esperou um orgasmo pra saciar os seus anseios. Mas, era sempre assim. Um sexo rápido, um cigarro e o barulho da descarga, levando a camisinha naquele rodamoinho de águas passadas. Sabia que este era apenas mais um dia ruim para todos que vivem a esperança de uma compaixão lúcida. Mesmo nunca estando sóbrio o bastante para crer na ternura de um sentimento tão ausente no cotidiano de um boteco.
“Filho da puta” – bradou em silêncio
Acomodou-se no escuro de suas lembranças e mastigou um palito no canto esquerdo da boca, já sem o batom de outrora. Pediu uma, duas e algumas outras doses a mais. Pagou a conta com uma nota em dó maior e seguiu cambaleando até o toillet feminino. Abraçou o vaso e cantou um verso banal de um bolero qualquer. No mesmo tom em que aquele rapaz disse “gozei”. Enfiou o indicador goela adentro e despejou toda a sua angústia na dor privada. Um sorriso amargo em meio a uma poça familiar, com restos seus escarrados e dele, esporrados. Pois ela estava justamente ali, onde o conheceu. Jogada naquele pedaço de chão, no vão entre um suspiro de amor perfeito e um rolo vazio de papel higiênico.
41 comments Junho 25, 2007
Anseios de Voltas na Lua
Antecipou o vôo e sorriu pela metade, quando a atendente o chamou para fazer o check-in no balcão. Estava voltando sem nenhuma perspectiva de carinho para aquele fim de tarde. Horas antes, sabia que ela não poderia passar aquela noite com ele, entrelaçada em seus abraços fartos e afagos quentes. Esperou um bom tempo para que ela o notasse. E assim, de repente, já estavam tão perto. Profundamente próximos em pensamentos, mas distantes fisicamente.
Recostou a cabeça na poltrona e afivelou o cinto. Lembrou-se da constelação que havia descoberto em seus olhos, das estrelas e dos cometas que avistou naquela imensidão de mulher. Interrompeu sua viagem pessoal com a voz do comandante informando um atraso na partida. Os controladores de vôo estavam atrapalhando somente as suas lembranças. Ele estava fisicamente ali, mas com a cabeça nela. Relembrava todos os detalhes, os movimentos e os gestos. Sorria só de imaginar novamente aquelas curvas oscilando movimentos de prazer a cada toque, beijo e deslize de mãos no dorso, na nuca.
“Atenção tripulação, preparar para decolagem” a sonora do piloto interrompeu novamente. Ao decolar, deixou o pensamento vagar pelas nuvens da incerteza e perdeu seu olhar no horizonte alaranjado. Pegou seu celular e tirou uma foto do pôr do sol. Enviou via SMS para o dela. Estava a milhas de distância daquela boca, daquele corpo. Ainda estava com o gosto dela nos lábios e o cheiro impregnado em seus poros. Mas, queria que ela visse a aurora indo embora, dando vida àquela noite escura e fria. Pelo menos pela tela do seu celular, ela poderia ver o que ele sentia naquele momento.
“Senhor”
Sem ela e sem os raios de sol, pra aquecer seu corpo e iluminar a alma.
“Por favor, senhor!”
Sem ela e sem estrelas e cometas, pra viajar até o espaço.
“Senhor, por favor!”
- Ãh? Sim, desculpe-me – Respondeu de supetão à aeromoça.
- Não é permitido o uso de aparelho celular durante o vôo.
- Mas, eu não estou utilizando, só tirei uma foto…
- É proibido, senhor. Por favor, desligue-o.
Sorriu pela metade, quando a aeromoça solicitou que desligasse o seu celular. Estava voltando sem nenhuma perspectiva de carinho para aquele início de noite. Pois a imagem que ela receberia pelo celular, foi enviada acima das nuvens. Com vontades de voltas na lua, sob um céu de estrelas. E mesmo que a viagem esteja apenas no início, a turbulência nos sentimentos já começou.
40 comments Junho 18, 2007
