Archive for Maio, 2007
Sobre Utopias e Desabafos Falhos
Eu apenas quero um bom livro para devorar neste dia cinzento. Também queria estar com a minha princesa hoje, debaixo do edredom, aquecendo tudo que é viril e bom. Talvez um chá de boldo pra curar a maldita ressaca e um comprimido pra aliviar toda essa dor de cabeça absurda. Mesa de bar, ou pub. Utopia barata de quem precisa reunir os amigos de infâncias e os da vida. Celebrar novamente as vitórias passadas e contar-lhes sobre minhas novas conquistas. Quero os da infância, os da bola, os da escola, os da época de faculdade e esses recentes, feitos na correria da labuta.
Eu quero voltar a ser criança. Sem contas e com esperança, acreditando em Noel, e nos ovos de páscoa. Voltar a ter o cafuné da minha saudosa vovó. Ah, que saudade da minha avó, do meu tio e de todos aqueles que foram tão intensos e de certa forma tão breves nesta minha jornada que parece longa. Quero poder dizer ‘eu te amo’ pro meu pai sem sentir vergonha. E que ele faça o mesmo comigo, sem ficar encabulado por eu já estar barbado, lhe beijando o rosto. Sim, pois nossa relação foi estreita, culpa do divórcio. E eu sequer sabia que já era gente quando mamãe se mudou para outra casa conosco. Quero fazer minha mãe querida entender que a amo muito e que ela me perdoe por demorar algumas semanas para visitá-la. E que a minha irmã seja humana da mesma forma que é uma excelente profissional, valorizando as diversidades, respeitando as nossas discordâncias. E que o meu sobrinho melhore, vença esse autismo com a força do carinho que sinto por ele. E que ele possa entender que o titio fica triste ao vê-lo nesta condição, e que é covarde para encarar seus belos olhos castanhos e aceitar essa doença maldita. Agradecer a Deus por ter uma madrasta maravilhosa e conselheira e uma mulher que me tirou das alheias, pondo-me nos trilhos.
Quero berrar de felicidade sempre que o sol nasce, levantando um novo dia pra mim, sem reclamar. Ou que a chuva me lavasse os pecados da alma. Poderia reviver minhas paixões e falsos amores. Chorar as lágrimas de emoção e de dor. Agüentaria firme tudo de novo, pois a vida já me deu respostas eficazes para os impulsos banais em alguns atos falhos e tolos. Queria que o meu carro parasse de me dar prejuízo, aceitar os conselhos daqueles que me pedem sempre para ter juízo e não me preocupar tanto com os meus compromissos. Mas, sou igual a você. Feito de carne, osso e sonhos. Feito de resto das estrelas e de alucinações, nas quais julgo serem sonhos. Permito-me ser feliz, mesmo que por um triz eu consiga esquecer que o mundo nem sempre é cor de aurora.
Sabe, na verdade eu apenas quero um bom livro para devorar neste dia cinzento.
36 comments Maio 29, 2007
Rabiscos no Guardanapo do Aerocafé
Sentou-se na sala de embarque e aguardou a confirmação de seu vôo. Queria voar mais alto, mas não pôde. O céu era enorme e ele sabia que, apesar de cedo, era tarde demais.
O check-in estava pronto. O bilhete já estava no seu bolso esquerdo e a poltrona era a 6-A, na janela. Acima dos nove mil pés, quando o avião estivesse acima daquele edredom feito de nuvens, queria imaginar que elas fossem feitas de algodão doce. Pra esquecer o amargo da vida. Parou de sonhar quando de repente ouviu aquele sonoro e melódico anúncio “Varig vôo...”. Pra variar, atrasado.
Decidiu se esquentar com um Capuccino, já que não teve como conhecer aquela menina-mulher que lhe aqueceria com suas doces palavras. Na verdade queria uma caneca de vinho, porém queria estar sóbrio pra imaginar como ela seria, como ela sorria e como era aquela moça. Só a conhecia das trocas de e-mail e torpedos interurbanos. Só.
Era a primeira vez que ele voltava para a sua cidade frustrado, e com o dó por não ter o tempo necessário e merecido para encontrá-la naquela tarde fria de outono.
Queimou a língua ao beber aquele café pelando, quase gritou um “caralho!” pelo ardor ou talvez pela dor que carregava pelo insucesso naquele dia, longe de casa.
Fechou os olhos e pensou no que escreveria para ela, avisando que já havia retornado ao seu destino. Mas, os caracteres na tela do celular não caberiam. Pediu ao garçom um guardanapo e rabiscou uma poesia banal.
O alto-falante anunciou seu embarque. Ele pagou o garçom, levou a poesia no bolso de sua camisa, do lado esquerdo do peito. Talvez nem conseguisse suspirar, pois o ar estava preso dentro do seu peito.
- Boa tarde senhor, seja bem vindo.
Quase inaudível a comissária estendeu a mão pedindo o bilhete. Erroneamente entregou o guardanapo com a poesia. Numa leitura veloz, ela ruborizada sorriu.
- Belas palavras. Mas este guardanapo do Aerocafé não lhe permite embarcar, senhor.
Desfiz o erro e lhe entreguei meu cartão de embarque. Sentei na poltrona e paquerei as nuvens. Naquela tarde fria, de Capuccino quente, não tinha na mente a imagem daquela moça, apenas a vista da janela do Boeing 747. O sol ainda estava radiante acima daquelas nuvenzinhas cinza. Seus raios me fizeram compreender que o tempo compensa as pequenas eventualidades.
Rabiscos no Guardanapo do Aerocafé
“Apenas um dia nublado e frio
Sol radiando esperança
Vento gelado, cachecóis e casacos.
Vinho, alternativa pra aquecer
Nunca esquecer
Clima propício para agir menos
Refletir mais
Agora apenas o desencontro do tempo
E como uma folha seca e morta
Deixo o vento soprar-me de volta
E a temperatura da ternura continua a mesma”
28 comments Maio 25, 2007
