Cais
Entrego-me ao mar e ao bailar das ondas. Deixo a maresia entorpecer o sentimento que antes parecia estar à deriva. Pescador que sou, jamais me deixei afogar em maré brava. E mesmo quando me afastei do porto seguro por conta de correnteza falha, jamais me esqueci de como é tão bom pisar em terra firme.
Resgatei-me a tempo de me livrar dos mariscos que afetavam o casco. Icei velas mais fortes em tempos de ventania, foi-se a tormenta e agora vivo dias melhores de brisa. Branda e fresca. E mesmo que um sopro de pensamento traga memórias daquilo que não foi sentimento, reforço o nó na âncora a tempo. Pois da rota nunca mais me desvio. Foi-se o que jamais deixou de ser espuma entre o cais e o navio.
Bruno Cazonatti
Rum com Hortelã
Este texto começou a ser rascunhado na semana passada de um mês atemporal ao momento em que você o lê. Pois tudo já é pretérito. E a coisa toda começou quando me esqueci de escolher caminhos mais longos, caindo no engano de pegar um atalho que me trouxe a um bar, numa esquina que já serviu de recanto para uma paixão-refúgio. Quando o garçom me trouxe aquela bebida feita com rum e hortelã, um trailer relâmpago rondou minha mente e eu me lembrei dela.
Olha que deu um trabalho danado me livrar de todas as memórias, mas, de repente, lá estava eu novamente recordando os sentimentos passados, a paixão consumida e a amizade que um dia já existiu. E tudo isso veio antes do primeiro gole naquele destilado com limão. As lembranças são como pertences trancados num quarto escuro, repletas de poeiras, onde eu as deixo quietinhas, fingindo não estarem mais por ali. Tudo por acreditar que não serve mais o que aconteceu ontem. Não importou o tempo que nos faltou, importa como aproveitamos o tempo que estivemos juntos.
Hoje não há mais espaço para a memória, apenas para o silêncio que não é dividido por pura indiferença. Eu não dou brecha nem para os sussurros. Não vejo, não leio, não sinto e não a quero mais por perto. Na verdade nem sei se está viva ou morta, feliz ou triste, amando ou sendo amada como realmente merece. Só tenho plena certeza que negando tudo isso, já é uma forma de me lembrar dela. Fazer o quê se sou imprevisível, inquieto e precoce? E permaneço fracassando nas promessas. Mas eu ainda sou o mesmo, sabe? E continuo usando meu velho All Star, escutando os Stones e, às vezes, bebendo rum com hortelã. Só não me permito mais ficar de ressaca. Garçom, traz a conta! Pois tudo já é pretérito.
Bruno Cazonatti
