Sentimentos Defuntos

Maio 22, 2009

abajur

A insegurança é o inquilino dentro da cabeça. Neurose. Um abajur ligado para a escuridão não tomar conta do quarto. Medo. Pode até ser que o cobertor me proteja de algo maléfico, mas é um artifício da segurança subliminar. Um copo d’água na cabeceira absorve toda a energia do ambiente. Estou nu.

A janela fechada atenua o barulho da rua. Sirenes, gargalhadas do bar e todo aquele ruído anoitecido. Eu podia ser mais um no meio do crepúsculo, mas tenho medo. Pavor das mentes alheias, das mulheres putas e puras, misturadas entre boates, pubs, botecos e esquinas. Todas elas roubam. Ladras! Abrem sorrisos e pernas para me ganhar. A última me levou o coração e agora, só vivo de sentimentos defuntos.

Sujo. Eu sou imundo mesmo. Só consigo me guiar pelas histórias ruins, onde fui coadjuvante. As boas, de protagonista, raramente me dão referência. É aquele clichê que reza o aprender com aquilo que deu errado. Bom mesmo é ser inexperiente, quando se ousa e não há o receio de tentar. Babaca. Eu sou um idiota por saber que, se colocar meu dedo na tomada novamente, levo choque.

Só consigo imaginar a dor. Não dá para resgatar a astúcia, o pioneirismo. Inexiste sentimentos de recém-nascido, suspiros joviais, tipo adolescente estúpido, mas corajoso. “Isso nunca vai acontecer comigo” era um lema, mas hoje já sei até que consequência não leva mais trema. Ficou tudo tão igual, sem graça e com cheiro de naftalina. O peito lateja com uns lampejos de memória.

Imagens amareladas remetendo a pessoas que se foram, sem festa de despedida. Dá até pra fazer um brechó na cabeça com tanta quinquilharia. Perfumes, sabores e músicas que me levam de volta aos momentos de dor e glória. Saudades múltiplas. Não dá para esquecer tudo. Se pelo menos só os momentos bons ficassem… Mas sempre que eu folhear os álbuns de fotografia, vou encontrar tudo de novo. Então, uso o cobertor para me proteger e deixo o abajur ligado, para que ainda reste um ponto de luz, em meio a tanta escuridão.


Sem Sal e Sentimento

Abril 30, 2009

sal

O mais difícil era o sabor antigo na boca. O beijo já gasto, sem anseio. Tipo hálito de cigarro impregnado na língua, ou aquele gosto após o escarro amarelo, pra fora do vidro do carro. Seco. Pelo retrovisor eu me lembrava de tantas histórias vividas, enquanto acelerava para o meio da rotina. Queria um freio, um cavalo-de-pau e a cara estatelada no meio fio. Sem cinto de segurança para salvar minhas falhas e covardias.

Precisava de ar. Novos ventos soprando bossa nova. Talvez um jazz, acompanhando um novo ritmo de vida. Sem o ruído chato da televisão, ou as letras pulando para fora do jornal de ontem. Só notícia ruim. De bom, apenas aquela aspiração por querer algo a mais, sem mais do mesmo. Tipo desvendar aquela mulher que, quase todo dia, esbarrava comigo no elevador. Ela me acendia a adrenalina.

Eu precisava da novidade, daquela tentação. Aqueles olhos negros, escondidos atrás daqueles óculos ridiculamente verdes. Arriscar o nada a troco de tudo. Um pássaro na mão e dois voando alto, fora de órbita. Aquelas pernas, seios, bunda e perfume doce. Bem mais do que um formal cumprimento “bom dia” de elevador. É chato demais ser formal. Queria poder falar sacanagem no ouvido dela, mesmo que os cabelos castanhos continuassem a esconder sua orelha. Porém, o medo é importante para segurar a tara e não transformá-la em assédio.

Todo dia era reza. Torcendo para esbarrar com ela. Aquele rosto me enchia de alegria, inflamava o peito. Mas a minha insegurança é foda. Barriga de chope, barba por fazer e alguns fios grisalhos no cabelo crespo. Um desastre no meio do paraíso. Eu sou tão fraco que não me acostumo nem a comemorar vitórias. Sempre penso negativamente esperando pelo pior. E se eu enviasse uma carta anônima, só para dizer que ela é linda? Bobagem. Não sou tão bom assim na escrita.

Se eu continuasse a comê-la com os olhos, era capaz de levar um tapa na lata. Um tabefe no meio da cara e o universo em desencanto. Minha sensação cessaria. Deveria ser romântico sem ser careta. Aprumar o galanteio e convidá-la para… um bar? Um jantar? Talvez um teatro, cinema? Enferrujado. Já não sabia mais a tática da juventude. Também tinha o abismo, é verdade. Descobri, através do fofoqueiro porteiro, que ela tinha metade do dobro da minha idade. E daí? Porra, eu não tenho grana, moro num conjugado, mas tenho um Fiat 147 bem conservado. Melhor do que o ônibus que ela pega em direção à Pavuna.

Engomei. Coloquei a camisa mais bonita, a calça bege e os sapatos pretos, engraxados na noite anterior. Treinei discurso em frente ao espelho, mas as palavras certamente fugiriam. Minha imagem medíocre estava ofuscada pela paixão repentina. Talvez fosse tesão mesmo, ainda mais que já estava há meses sem copular. Não queria pagar o sexo, queria o sabor da conquista. Mas, era além da cama. Mistura de ansiedade com dor de barriga. Paixão.

Eu havia esquecido que a vida era feita de ilusão e sonhos não realizados. Queria a refeição completa, mas não sabia sequer pedir o prato de entrada. Arrisquei, logo que a vi esperando pelo elevador. Puxei conversa sobre algo banal e ela sorriu. Senti-me o tal! Antes de saltar no meu andar, ela me deu um cartão com seu nome e número. Sorte. A porta se fechou e ela seguiu no elevador, rumo a algum lugar daquele prédio comercial. Ainda bem que ela não viu meu olhar abobalhado, aquele de menino querendo o beijo da menina mais bonita da escola.

Pingava suor. Nervoso, tímido, bem garotão. Contei dez minutos e disquei. Não era celular. Devia ser o número do escritório onde ela trabalhava. Um rapaz atendeu e eu desliguei. Covarde, covarde, covarde! Novamente liguei. Ela atendeu. Introvertido, eu lhe disse que era eu, aquele cara que falou sobre o tempo, dentro do elevador. Ela estava apressada, pois tinha que atender a um cliente. Pediu para eu ir ao vigésimo andar, às 13h. Almoço? Talvez.

Ansiosamente esperei. Dez minutos antes, cheguei. Porta branca, campainha estridente. Dava para ouvir um som. Uma pista de dança apareceu logo quando o cafetão abriu caminho. Perguntou com que puta eu havia marcado o horário. Meu Deus, quase chorei. Ela não. Sorriu assim que me viu. Puxou-me pelas mãos e me amou no quarto recém arrumado. Levou a merreca que eu tinha na carteira. Finalizei. Tudo que ela tinha de valioso, se perdeu. Pensei que ela era moça casta. Era quenga. Eu pensando em carinho e romance. Ela em sobreviver com o seu ventre.

O mais difícil era saber que novamente tinha na boca, aquele sabor antigo. O beijo já gasto, sem sal e sentimento. Tipo hálito de cigarro impregnado na língua, ou aquele gosto após o escarro amarelo pra fora do vidro do carro. Seco…